O processo, parte 2

Nossa! Faz quase um mês que não escrevo aqui e precisava tanto…! A verdade é que as semanas que antecederam a implantação do embrião e as primeiras semanas de gravidez foram muito difíceis e eu fiquei totalmente desnorteada e até sem energia. Fora que eu trabalho bastante, todos os dias, com produção de conteúdo, então a cabeça fica sobrecarregada. Mas, não, o retorno urge.

Então, voltemos ao processo. Apesar de serem uma bateria, os exames de sangue padrão são cobertos pelo plano de saúde – pra quem tem o luxo de ter plano de saúde, óbvio. Eu e Inês tínhamos plano de saúde pela empresa que a gente trabalha ( que é a mesma!). No entanto, desde que a gente fez a união estável, eu me tornei dependente no plano dela, que é melhor que o meu. Ainda assim, há três exames que nem todo plano cobre ou, se cobre, não é em qualquer lugar.

Um dos exames mais importantes para mulheres que querem fazer fertilização é o Anti-Mulleriano. É ele que vai dizer, através do sangue, como está a reserva ovariana. Se você tem mais de trinta e cinco anos e pensa em gerar um bebê, ele é imprescindível. Nosso plano cobriu esse, mas em um laboratório específico. Já o cariótipo, que vê se há alguma doença congênita, tivemos que pagar. E não foi barato! Na época, novembro do ano passado, foi quase quinhentos reais pra cada uma. E teve mais um, a Vídeo Histeroscopia, importante pra ver a cavidade uterina, o revestimento, o endométrio, e checar se está tudo bem com a parte interna. A clínica que a gente fez tratamento fazia esse exame lá, só que era muito, muito caro!

Nessas horas, tem que ter paciência mesmo. Ligar para os laboratórios, para a Central do plano, hospitais. Ah, e não ter vergonha de perguntar na clínica de fertilização se eles sabem de outros lugares que fazem. Na clínica, seria mais de dois mil reais, teria anestesia. Na Perinatal de Laranjeiras, o convênio pagou tudo. Não teve anestesia e também não foi nada de mais. Só tem que agilizar a decisão, porque pra marcar é mais concorrido.

Enquanto a gente ia fazendo os exames e esperando os resultados, íamos conversando sobre o que a gente queria. E olhando os perfis de doadores do banco indicado pela clínica. É estranho pensar que nossos filhos vão ser feitos a partir do DNA de uma pessoa que a gente nunca vai ver na vida. Isso realmente mexeu muito comigo. Mas e aí? Tem como fazer diferente? Somos duas mulheres que se amam e que querem ser mães juntas, viver todos os processos. Que jeito?

O banco que a clínica trabalha é um dos maiores do mundo. Talvez o maior. Provavelmente, um dos melhores também. Se chama Fairfax Cryobank, é americano. Tudo é feito pela internet: você entra no site, começa a escolher o perfil do doador e, voilà, como um Tinder, ele vai te mostrando as opções – lê-se fotinhas de bebês com informações sobre cada um. A gente sempre teve em mente que não queria alguém muito diferente da gente fisicamente. Imagina: temos cabelos escuros, olhos castanhos, não fazia muito sentido optar por um doador louro e de olhos claros.

O banco te dá a possibilidade de pagar mais e ter acesso às fotos dos doadores – os que disponibilizam – ao longo de vários momentos da infância e da adolescência, até chegar à vida adulta. Recomendo FORTEMENTE! Tem cada criancinha linda que se torna um adulto completamente diferente… O que a gente buscava: fora um características semelhantes às nossas, que tivesse sido uma criança bonitinha, um adolescente com cara boa e um adulto não necessariamente bonito, meio “guy next door”, sem traços muito fortes. Ah, e com curso superior, pelo menos. Fora as questões visuais, que apontasse interesses e visões sobre a vida interessantes. Não que isso fosse fazer diferença na personalidade dos nossos filhos, e sim como elemento de escolha mesmo.

Quando todos os resultados dos nossos exames ficaram prontos, marcamos uma segunda consulta com a médica. Aliás, tem um ponto importante: quando você entra numa clínica de fertilização, você vê um sem fim de quadros com rostinhos de bebês e ouve um discurso de que “tudo é possível”. Se fosse assim, todo mundo chegava lá e conseguia engravidar de primeira. Sabemos que não é assim. Há uma série de fatores que vão determinar se o tratamento vai ser bem sucedido. E nem mesmo eles são totalmente certos. NADA É TOTALMENTE CERTO NA MEDICINA. Ainda mais a reprodutiva.

Os nossos exames estavam bem normais. Cariótipo também: tudo certo. Mas teve um que fez a gente começar a entender que nós, mulheres, estamos realmente correndo contra o tempo quando o assunto é gerar uma vida. O anti-mulleriano da Inês foi bem baixo. Como ela tem 42 anos, já possui uma baixa reserva ovariana. E não é só isso: nada garante que os óvulos coletados estejam bons, uma vez que, quanto mais velha a mulher é, pior a qualidade dos óvulos. Se ela também quisesse mesmo passar pelo tratamento, íamos enfrentar desafios mais complexos ainda.

A essa altura, já tínhamos selecionado o doador. (Ai, meu Deus, até hoje, quando penso nisso, me dá um incômodo. E preciso me acalmar e me convencer de que essa foi a maneira que encontramos. Agora entendo que é muito mais preconceito e apego aos costumes sociais do que qualquer outra coisa. Pois bem, se você vai passar por isso ou já está passando, eu aconselho que faça análise).

Decidimos que eu iria começar o meu tratamento primeiro e a Inês faria a estimulação uns meses depois. Fertilizaríamos com o sêmen do mesmo doador e, uma vez congelados, a gente colocaria primeiro embriões do meu óvulo e depois, numa outra gravidez, embriões do óvulo dela. Estava decidido!

Bem, a gente achava que estava. Muitas das nossas certezas ainda iriam mudar.

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