No caminho… e uma volta pra explicar como tudo começou

Eu costumo ser uma pessoa planejada. Traço objetivos, estipulo prazos. Tenho receio danado do tempo passar e eu ter ficado pra trás na minha própria vida. Eu e Inês estávamos casadas, sob o mesmo teto, há menos de um ano quando começamos o tratamento. Eu tinha na cabeça que, ainda que a gente não fosse e engravidar, não queria deixar que os meus óvulos ficassem mais velhos pra isso ser um problema lá na frente. A gente poderia deixar os embriões congelados, pelo menos eles seriam formados por uma mulher de 33 anos. Ia ser um baque se eu não conseguisse tirar muito ou se os benditos não estivesse bons.

Pois bem, o cronograma. Só pra contar rapidamente a nossa história sob o olhar do tempo. Eu e Inês nos conhecíamos há muitos anos. Nossos pais eram amigos desde sempre e acabamos nos encontrando em 2010. Antes disso, a gente já era amiga de Facebook. Por coincidência, a gente ainda trabalha na mesma empresa, só que em áreas diferentes: eu sou do jornalismo e ela do entretenimento.

A vida dela – ou o que ela queria mostrar sobre a vida dela – sempre esteve ali, na rede social. Na real, eu sempre soube que ela gostava de mulher, embora ela fizesse questão de mostrar que namorava homens. Já eu vivia um romance ali, outro aqui, oscilando entre homens e mulheres.

Em 2015, me mudei para São Paulo, a trabalho. Eu tinha passado uma fase pessoal bem difícil, com crises de ansiedade, angústia, depressão e a ida para São Paulo me deu um novo ar. Na minha cabeça, eu não ia casar com ninguém. Ia ter meus lances, porém não construiria uma trajetória a dois ou a duas. Estava até procurando bolsas para estudar fora e, quem sabe, tentar uma brecha de correspondente, junto com um mestrado.

Filhos sempre foram uma vontade enorme. Eu tinha combinado comigo que, aos 35 anos, eu olharia à minha volta: se eu estivesse com alguém, ótimo, teria um filho. Se não, eu partiria para uma produção independente. Nada disso!

Foi em três de maio que tudo começou a mudar. A Inês postou um texto no Instagram e eu adorei.

Escrevi “oficialmente roubado” e repostei. Ela me mandou uma mensagem direct e… pronto! Ficamos de dez e meia da noite às cinco e meia da manhã conversando. Ela no Rio e eu em São Paulo.

Duas semanas depois, fui passar férias no Rio – isso já estava programado. Voltei pra São Paulo, vinte dias depois, sem prumo. Tinha deixado o meu coração com ela. Não dava mais pra viver sem.

Em setembro a gente resolveu que não dava meeeeeeesmo pra viver sem. Pedi transferência, que só saiu em março do ano seguinte. Enquanto não acontecia, vivemos uma loucura (loucura é pouco!) de idas e vindas de avião, porque a saudade doía se ficássemos um dia sem nos ver. A verdade é que eu praticamente trabalhava em São Paulo e dormia no Rio. Ou pelo menos ia a cada dois dias. Não consigo enumerar quantas vezes eu passei por aquele raio-x do Aeroporto Santos Dumont ou desci do avião em Congonhas aos prantos. Era a gente que eu queria.

Nesse tempo, fomos amadurecendo a ideia de morar juntas e de formar uma família. Até que, em março de 2017, finalmente vimos realizar o que a gente tanto, tanto, taaaaaaanto queria: fui finalmente transferida. Estava voltando pro Rio, pra morar com ela de vez.

A Inês morava há quase vinte anos no mesmo lugar. Tinha feito uma reforma dois anos antes. Só que eu tinha montado um apartamento com tudo novo em São Paulo. Então, tiramos o que estava mais velho para colocar o que era meu e virava nosso. Arrumamos absolutamente tudo, de papéis a pratos. Ah, importantíssimo: além de móveis, louças e eletrodomésticos, trouxe comigo as minhas duas maiores preciosidades: Mel e Maria, minhas cachorrinhas, minhas filhas, que se tornaram dela também.

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Essa foto já foi tirada no apartamento novo. Eu gostava da vida que a gente estava levando, mas queria muito que a gente se mudasse para um apartamento que as duas entrassem juntas. Aquela era a casa de sempre da Inês, desde o começo da vida adulta, e com o passar dos meses, isso começou a me incomodar.

Agora é a hora do cronograma…

Em novembro, coloquei o apartamento que a gente morava para alugar e começamos a ver outro, maior, no mesmo bairro. Enquanto isso, a gente estava fazendo os exames indicados pela médica da fertilização e decidindo o lance do doador.

Em dezembro, já tínhamos achado o lugar que a gente queria e arrumado gente pra alugar o nosso. O contrato da nova casa começaria no fim de dezembro, no entanto, a gente teria que mexer, porque, embora fosse o que queríamos, estava bem detonadinho.

Seria assim: fim de dezembro a gente pegava as chaves, ficaríamos duas semanas ajeitando, com pintura, dando um jeito, em janeiro a gente se mudava, em fevereiro começaríamos o tratamento, aí março a gente descansava e em abril, viajaríamos de férias, com embriões maravilhosos congelados, só esperando a gente decidir quando colocar. Pá, esse era o plano. Mas como garantir que daria certo?

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