O começo do tratamento – e das caraminholas

Um conselho que eu posso dar de olhos fechados para casais de mulheres que desejam engravidar (ou até casais heterossexuais, que estão com alguma dificuldade): não esperem o tempo passar. Quanto mais novos os óvulos, mais chances de um tratamento bem sucedido.

Eu sempre tive isso em mente. Tenho algumas amigas e conhecidas que viveram um pesadelo, tentaram várias vezes, gastaram rios de dinheiro e, obviamente, mexeram bastante com suas vidas. Não, eu não queria passar por isso. E sempre tive muita certeza do meu relacionamento com a Inês. Se tinha alguém com quem eu gostaria de conceber e criar um ser humano, esse alguém era ela. A gente costuma dizer que, se fossemos capazes de fazer um bebê naturalmente, já tínhamos feito.

Eu estava com 33 anos e também não sabia se ia corresponder ao tratamento. Quando você começa um processo de fertilização, não tem garantias. Estava decidido: seria em fevereiro. Passamos janeiro arrumando o nosso novo apartamento e aproveitando ao máximo. Montamos tudo exatamente como a gente queria. Eu nunca tinha feito isso com alguém antes: escolhido cada objeto, decidido o que teria em cada canto. Confesso que esse processo todo me exauriu, mesmo que eu tivesse amado o resultado. Eu não tinha a menor ideia de que o tratamento seria um desafio muito, muito maior.

Foi assim: a médica falou para avisar logo que viesse a minha menstruação de fevereiro. Quando isso aconteceu, a gente foi fazer uma ultra, na própria clínica. Aparentemente, estava tudo bem e eu tinha óvulos com potencial para serem estimulados, embora isso não seja certeza alguma.

Depois do exame, ficamos esperando a médica em uma das “cabines” da clínica. “Já vou aí, vou preparar o protocolo de vocês”. Nossa! Eu não fazia ideia de como a palavra “protocolo” iria me impactar. Estávamos ali, eu e Inês, querendo passar por um processo que mudaria as nossas vidas para sempre, e precisávamos esperar o nosso “protocolo”.

Eu não vou aqui maquiar o que passamos. Não foi simples, nem glamouroso, e nem um pouco fácil. Vou contar exatamente o que enfrentamos. E, nesse ponto, a cabeça começou a titubear. Era artificial. Tudo muito artificial. E eu não tinha a mais vaga noção de que essa questão mexeria comigo. Vai piorar!

Ainda na cabine de paredes transparentes, que separavam vários casais, de diferentes perfis e trajetórias, recebemos um bolo enorme de papéis. Eram contratos. Seis deles! Com tudo o que nós duas deveríamos saber e consentir para começar o tratamento. E não era só assinar, não. Firma reconhecida, tá? Entre os itens, a ciência de que o processo não é nem um pouco certo. Eu precisaria ler de novo para poder citar o sem fim de cláusulas que tinham ali. Vendo agora, acho que apaguei da minha mente. A única lembrança que eu tenho foi de dizer pra Inês: “Vamos embora daqui!”. Fico angustiada só de me remeter àquele momento. Sabem “Black Mirror”? Aquela série da Netflix? Foi assim que a gente se sentiu.

Junto com esses documentos, que tínhamos que levar pra casa e devolver com a assinatura das duas, as instruções para as próximas semanas. Os remédios, as injeções, as doses iniciais, onde comprar e o telefone de uma psicanalista da própria clínica, que já comecei a desconfiar que iria precisar.

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