A estimulação dos ovários. E dos meus medos

É isso! A primeira parte do tratamento é basicamente entupir o seu corpo de hormônios para estimular o maior número de óvulos. E ficar monitorando, para ver se está dando certo. Começamos pelo Natifa, que nada mais é do que estradiol. Eu tomei quatro drágeas por dia. Pensa só: de repente, você, que está saudabilíssima, começa a tomar remédio para menopausa. Um só, não. Quatro!

Pra boa parte das pessoas com quem eu conversei, isso não foi lá uma questão. Eu P-I-R-E-I. Acho que eu materializei todo o medo que estava sentindo, esse enorme passo, nos remédios que eu estava tomando. Toda vez que eu lembrava que estava botando vários hormônios pra dentro, ficava desesperada, como se eles fossem me controlar, me tornar outra pessoa. Passei a ter ataques de ansiedade. Percebi que não estava dando conta. Aí resolvi procurar o meu padrinho, que é psiquiatra.

A verdade – e eu não entendia isso naquele momento – é que eu estava tão apavorada com as mudanças, com esse passo, que não era fichinha, que passei a dar tilte. Acontece que a maior parte das pessoas que procura uma clínica de fertilização ainda é por conta de um impedimento. Geralmente, elas chegam lá frustradas, depois de um tempão tentando engravidar. Outras já passaram por mais clínicas. O tratamento, os remédios, um último recurso. Talvez a luz no fim do túnel.

Não era o meu caso. Eu estava ali, com a minha mulher, para a gente gerar um filho juntas. Não estávamos sofrendo por causa disso. Pior: sabíamos que o bebê que eu carregaria dentro de mim não teria o DNA das duas, como acontece com os casais de homem e mulher. Era preciso relevar tanto… Será que era isso? Será que era o certo? Será que era a hora? Ou será que era eu não conseguindo lidar com o meu próprio preconceito?

Na dúvida, fui. Entre um ataque de ansiedade e outro, angústias que pareciam que iriam me consumir, segui. Me apegando ao nosso laço, à nossa parceria, ao que estávamos construindo.

Em determinado ponto, os comprimidos foram sendo substituídos pelas injeções. Todos os dias, no mesmo horário. E em todas as vezes, foi a Inês que aplicou. Ela pegou isso pra ela. Hoje, posso dizer que nunca apliquei em mim nenhuma dessas injeções. Eu chegava do trabalho e lá estava ela, me esperando, com tudo preparado. Um foco, uma responsabilidade, um cuidado. Na primeira vez, aliás, apesar do excesso de zelo em não fazer besteira com a agulha, a minha pele e o conteúdo carérrimo daquela caneta-seringa, ela chorou, emocionada. Essa é a minha mulher, a pessoa que eu escolhi. Por que não fazer uma família com ela?

Com o passar dos dias, as idas à clínica foram ficando menos espaçadas. Além do exame de sangue para saber a quantas andava a absorção dos hormônios, é importante monitorar a evolução dos óvulos, até para calcular a dosagem de (mais!) hormônio necessária para que eles cresçam. Os meus, já se via, eram muitos. Respondendo bem ao empurrão. E estavam cada vez maiores.

Isso tudo acabou invadindo o carnaval. A essa altura, a minha cabeça estava num nó danado. Foram muitos ataques de ansiedade, parecia que eu ia enlouquecer. Que eu estava sendo invadida por uma onda de substâncias que me controlavam. Era desesperador! Comecei a perceber que não era só o processo médico: era eu. Eu!

Precisava passar por um longo e intenso auto-enfrentamento. Autoconhecimento também. Era urgente que eu olhasse para os meus anseios e tentasse compreender o que estava acontecendo comigo. Ou até: quem era eu nisso tudo?

Hoje, me permito dar mais esse conselho: acompanhamento psicológico. Fundamental e imprescindível. Óbvio, para quem pode se dar isso, porque não é nem um pouco barato. Pra mim, questão de sobrevivência.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s