Óvulos, óvulos e mais óvulos

Afinal, são eles que importam, né? É para desenvolver a maior quantidade de óvulos que passamos semanas tomando hormônios e monitorando as bolinhas dia sim, dia não. E cada vez que eu via que vários dos meus iam respondendo, eu pensava nas mulheres que não tinham a mesma sorte. Repito, todo esse processo não é uma garantia. Os óvulos podem não crescer e o pior: até evoluírem, mas não estarem bons quando forem extraídos e passarem pela fertilização. Por enquanto, tínhamos sinalizações positivas.

Eu só queria que isso tudo acabasse. Que o tal dia da punção chegasse, pra que a vida voltasse ao normal, minimamente. E se tem uma coisa que eu aprendi nisso tudo é que, por mais que pareçam demorar, os dias passam. E chegam! Na última ida à clínica eu era um poço de hormônios. Chorava de tensão, de exaustão, até mesmo tirando sangue. “Está acabando, Maíra, segura mais um pouco!”. Era o que todo mundo me falava, o que a Inês me falava, o que eu me falava.

Nesse momento, a minha preocupação passou a ser outra: a sedação. Se eu estava ficando com paúra de tomar remédios, imaginem de ser apagada numa mesa. Sim, essa se tornou a minha principal questão. “E se eu não voltasse? E se eu falasse muita besteira? E se eu dissesse coisas que magoassem?”. Juro, tudo isso passou pela minha cabeça. Sabem o que eu fiz? Nada! Fui com medo mesmo, como aconteceu em todas as etapas. Antes, ficamos sabendo que a Inês não poderia entrar na sala de cirurgia. Ela ficaria esperando no quarto para onde eu seria levada depois da aspiração.

Nesse intensivo em que nos fazíamos presentes periodicamente no paraíso/purgatório da fertilização, nos deparamos com muitas mulheres sozinhas. Umas eram casadas, outras tinham embarcado nessa empreitada solo mesmo. Eu e Inês estávamos sempre lado a lado. Não seria, se fosse diferente. Assim, lá estávamos nós, cedo, para mais essa. E aí eu insisto: quando for escolher o lugar onde vai se submeter a essa loucura toda, tente ter alguma afinidade com a equipe que vai cuidar disso. Sem a Inês ali, eu confiei na médica, que ficou segurando a minha mão até eu perder a consciência, enquanto minhas lágrimas escorriam por mais motivos do que eu gostaria de enumerar.

Despertei numa salinha com televisão, deitada numa maca. A Inês ainda não estava lá. Pedi por ela. Ainda grogue, a imagem da Inês entrando naquele quarto de clínica foi a personificação da salvação. Ela estava ali. Tinha acabado. E ela estava ali. Chorei, de novo. Choro catártico de longas semanas que me viraram do avesso, me colocaram à prova.

Eu não me recordo com exatidão, porém a Inês disse que, quando chegou, me encontrou mesmo em lágrimas. Contou que eu dei um abraço nela e desabafei, com o mais inflamado sincericídio anestésico: “achei que eu fosse acordar e pedir pela minha mãe, mas eu pedi por você”. Sim, eu pedi por ela. O meu porto-seguro, minha companheira de vida.

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