Seleção natural, apesar de tudo

Depois da punção dos óvulos, do fim dos hormônios, eu e Inês tratamos de retomar a vida. O resultado da biópsia embrionária demoraria um pouco a sair e a gente se concentrou em aproveitar a casa nova e planejar a viagem que faríamos no mês seguinte. Era uma trégua, depois de tantos exames, expectativas. Éramos só nós de novo.

Nesse meio tempo, eu voltei a fazer análise. Duas vezes por semana. Sabia que estava precisando muito, e não pelo processo em si, mas por mim mesma. Os últimos tempos tinham sido tão complexos, conturbados até, e eu não deitava num divã havia quase três anos. Fui acumulando uma subjetivação não elaborada, cujos efeitos eu tinha sentido nas últimas semanas. Em cheio!

A Inês também tinha as questões dela, que também não giravam apenas em torno da maternidade. Era a primeira vez que as duas abriam pra todo mundo uma relação com outra mulher – relação, não, um casamento! – e isso teve um efeito nas nossas vidas. Não foi fácil. Se eu enumerar aqui cada situação pela qual a gente passou, cada julgamento, cada frase feita, de gente próxima, como se a gente estivesse fazendo algo de errado (e tínhamos que ouvir qualquer coisa que passava na cabeça dos outros…), eu não parava de escrever aqui.

Inicialmente, nas nossas famílias diretas, ninguém abriu uma garrafa de champanhe quando se deparou com a gente, tão comprometida. Eu acho que, no fundo, rola uma esperança de que seja apenas uma “fase”. Aliás, você conta nos dedos quando a notícia vem com uma recepção calorosa, sobretudo no meio social em que estamos inseridas.

É mais complexo do que isso. Por muito, muito tempo, acho que hoje tenho essa clareza, por mais que eu me permitisse viver esse amor, por dentro, eu mesma me sentia destruída, incompreendida, desamparada, culpada e até contaminada pelo preconceito. Como tem gente que deixa de ser feliz, verdadeiro consigo, por causa de preconceito…

Tínhamos nos mudado, construído uma casa juntas, estávamos recebendo sempre muitos amigos e aproveitando para falar um pouco dos nossos planos. Eu, particularmente, queria que quem estivesse próximo entendesse o processo, que ainda é tão desconhecido, mesmo pra quem tem vontade de fazer. A gente deixava cada um fazer todas as perguntas que surgissem. E eram muitas!

Inês e eu tínhamos combinado que a gente tomaria quantas taças de vinho quisesse, todos os copos de cerveja, que viveríamos uma despedida da vida de casal sem filhos. Vida loca, conciliada com o trabalho, claro. Até que, enfim, vieram as férias. Viajamos para a Europa e visitamos cinco países em dezesseis dias. Intenso, como nós. Nos tratamos beeeeeeem!

Antes disso, ficamos sabendo que, dos nossos sete blastocistos, cinco eram “normais”, como a medicina chama os que não têm alterações cromossômicas. Cinco chances, quatro meninas e um menino. A princípio, nossa intenção era colocar dois, um menino e uma menina. Isso também iria mudar.

 

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