Um é pouco?

Quando eu penso que eu e a Inês planejávamos colocar dois embriões, me dá até um tremelique. A gente falava, com veemência, que queria gêmeos: um menino e uma menina. E, assim, íamos planejando como seria a vida com Martin e Antonia.

Só que, quando foi chegando o tempo que a gente tinha estipulado para talvez fazer a implantação, eu comecei a sentir uma angústia. E, quando sinto angústia, é porque tem alguma coisa que eu preciso desenvolver melhor aqui dentro, ainda que eu não consiga identificar o que é. Foi na análise que eu ouvi a pergunta: “Mas por que dois?”. Na hora eu respondi, com os nossos argumentos, meus e da Inês. No entanto, o questionamento vinha e voltava na minha mente. “Por que dois?”.

De repente eu comecei a pensar numa gravidez com dois seres humanos crescendo aqui dentro. E em como a nossa vida de recém-mães, que já seria complexa com um, se tornaria muito mais difícil. A gente tinha cinco chances, cinco blastocistos saudáveis, biopsiados. Mesmo que eu tivesse certeza de que me faria muito mal prolongar as tentativas, como num estalo, me dei conta de que uma gestação dupla seria demais. E de que dois bebês também.

Normalmente, eu não seguro minha nebulosidade com a Inês. Se algo me incomoda, eu solto, para o bem ou para o mal. Só sei agir assim na nossa relação, embora eu reconheça que nem sempre a recepção é positiva, sobretudo quando ela é pega de surpresa. Porém, cada vez mais, eu percebo que a Inês vai entendendo como eu funciono e vamos nos moldando. Sempre com amor. Sendo legítima comigo, eu também estaria sendo com ela.

“Eu não quero dois de uma vez, vai ser demais pra mim”. Do outro lado, uma cara um pouco decepcionada. A Inês é a pessoa mais transparente do mundo. Ela não disfarça, nem tenta. E eu adoro tanto que ela seja assim. Proferi a sentença, joguei a bomba. E não demorou muito para que ela também concordasse. A gente poderia, sim, ir devagar. Tínhamos tempo e saúde pra isso. Pronto, ela estava comigo. Ela está sempre comigo. Que sorte a minha!

Agora era com a gente: quando seria? Mês que vem? No próximo ano? Tinha chegado a hora certa? Sabe-se lá se existe hora certa…! Me dava paúra pensar que, subitamente, a gente entraria numa clínica e sairia com um bebê no meu ventre. “Para, que eu quero descer!”, eu disse, mais uma vez. E, mais uma vez, voltei a ser uma confusão de pensamentos, sentimentos, dúvidas, medos, explosões de ansiedade, que me acordavam no meio da noite, sem ar. Ai, Inês, que paciência comigo…!

Cadê a minha resposta? Tinha ou não chegado a hora certa? Eu tenho 33 anos, a Inês, 42. A gente leva uma vida confortável, temos uma relação de respeito, confiança, admiração, muito afeto. Brigas, opa! E uma cumplicidade que eu nunca conheci igual. Ponto positivo.

Na contramão, a gente não estava tentando há um tempão e não conseguindo. A gente simplesmente resolveu que queríamos ser mães, juntas. Só que por um tratamento caro e difícil, com doador desconhecido, reprodução assistida e tudo mais. Duas mães e uma filha. Duas mães! E uma filha com uma parte genética que a gente nunca iria conhecer.

Pera aí, Maíra! Quantos amigos você tem que tiveram pai, foram registrados, e sequer o conhecem? Quantas mulheres têm filhos com caras que depois elas passam a odiar? Quantas pessoas se casam só para poderem ter um filho? Porque a sociedade manda… E quantas não adotam? Ei, será que você também não está tendo preconceito?

Sim, um preconceito que não era meu. Um preconceito de uma tradição que tinha ficado enraizada em mim, como tantos outros preconceitos. Eu iria me privar de ser mãe por conta de um preconceito? Privar a Inês? Me privar de criar um ser, de amar um ser, com a pessoa que eu mais amo no mundo? Quanto amor a gente tem…!

Claro que seria muito mais fácil se… ops! Engravidei! Não! Aqui é um processo, uma escolha. Pensa antes, engravida depois; não o contrário. Vai, minha filha. Se tiver medo, vai com medo mesmo. Fomos!

 

 

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