A hora H.

Maio sempre foi o nosso mês. A primeira conversa virtual foi em maio (lembro aqui pra quem lê que eu estava morando em São Paulo, ela no Rio, mas a gente já se conhecia de anos. Famílias amigas, antes mesmo da gente nascer). A primeira vez aconteceu dias depois, também em maio. Foi no mesmo mês, só que no ano seguinte, já morando juntas, que a gente acordou um dia, colocamos uma roupa bonita, juntamos os documentos e fomos ao cartório, fazer a nossa união estável. Em maio nos reencontramos, em maio ficamos, em maio casamos. Colocar a nossa filha dentro de mim tinha que ser em maio.

A dinâmica da implantação de um blastocisto congelado é diferente de um fresco. Há médicos que preferem que se dê um tempo depois da aspiração dos óvulos, porque o corpo já está bem castigado com a estimulação e tudo mais. Então a gente tinha mais um ponto a favor.

Funciona mais ou menos assim: você tem que avisar à clínica quando vier a menstruação. A partir daí, uma ultra, de preferência no dia seguinte, vai ver a quantas andam os ovários, o endométrio. O corpo tem que ser preparado para o embrião, então o endométrio tem que estar com determinada forma, de um tamanho específico e a ovulação tem que ser controlada.

Eu já estava achando tudo tão artificial, estava com tanta resistência a remédio, que pedi que essa etapa fosse feita “ao natural”, sem estrogênio. Pra isso, havia uma condição: ir à clínica dia sim, dia não, pra monitorar. Ok, isso eu podia fazer. Ainda mais se fosse para evitar mais uma bomba hormonal. Lá estávamos nós, frequentando aquele espaço periodicamente. De novo. (Nesse momento, eu faço um minuto de silêncio pelas pessoas que apostam todas as suas fichas na fertilização e tentam várias vezes. Gente, vocês que passaram por isso têm meu respeito e minha admiração).

A colocação dos embriões congelados também tem todo um protocolo (olha eu, já adotando a palavra que antes me provocava pontadas no psicológico), que a gente foi seguindo direitinho. A gente ficava dependendo do dia certo da ovulação e aí tinha uma conta que a médica fez. Quatro dias antes, eu teria que começar a tomar Utrogestan, que nada mais é do que progesterona bio-idêntica. É, por enquanto era só isso mesmo: progesterona bio-idêntica. Só que, quanto mais eu ia tomando, mais eu ia percebendo que as três cápsulas diárias tinham um efeito devastador. Era necessário, não tinha jeito.

Já imaginou ficar grávida com hora marcada? Ver um embrião ser introduzido dentro do seu útero, ficar deitada mais uns vinte minutos e sair andando? Obviamente isso me deu ataques de ansiedade. De preferência, pra melhorar bem as coisas, no meio da noite. Eu pensava na gente tendo uma filha, educando um ser junto com a Inês, formando uma família. Daí a passar por isso tudo…! Dessa forma, quase como se eu fosse uma andróide, “programada para ser mãe”? Por que tinha que ser assim?

Tinha que ser assim. Tinha que ser assim. Era difícil pensar lá no final, na carinha da nossa bebê, quando o começo se apresentava desse jeito. E um começo que já durava meses… Vou dar pra trás! Não, não vou, não. Eu quero ter uma filha e quero que seja com a Inês. Quero que a gente viva isso.

Pedi dois dias para o meu chefe no trabalho, expliquei o que era. Avisei que podia dar errado também. Eu poderia ter dado uma desculpa. Só que essa não sou eu e nem é a Inês. Queria fazer com calma, com paz de espirito – ou a que eu conseguiria ter naquele momento. Vai, vai com medo mesmo. Nós duas, de mãos dadas, como sempre, desde o início. Até a minha mãe foi, pra dar apoio – já que esse era o mecanismo, né? A gente leva a mãe. Eu me senti ainda mais acolhida por isso.

28 de maio de 2018: o dia em que uma equipe médica colocou a nossa filha, um mini apanhado de células, no meu ventre. O dia em que eu e a Inês mudávamos de vez as nossas vidas.

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