Ligeiramente grávidas

Não existe definição melhor para os primeiros dias pós implantação. Você tem um embrião dentro de você, viu colocarem, o que deu bastante nervoso, mas, para que ele vingue, precisa se fixar e se desenvolver. Foi a nossa médica que disse isso, logo que terminou: “Você está ligeiramente grávida”. E foi assim que eu me senti.

O fato de termos colocado um blastocisto de cinco dias, morfogologicamente bem avaliado e biopsiado (cada etapa disso é mais dinheiro, viu?) aumenta a possibilidade de êxito. No entanto, como digo em quase todo post: é medicina, amigos. A mim, cabia repouso nos primeiros dias que se seguiram, cuidado com o corpo e o maior de todos os elementos, algo, aliás, que sempre me foi escasso: paciência.

E tem mulher que só descobre que está grávida no terceiro mês… “Ops! Estou grávida!”. Não, não era nem um pouco o caso. Fora o processo de meses, por causa do tratamento, você fica grávida antes de estar, de fato. E pode nem estar…

Confesso que, no começo, eu me esforçava para vencer uma vontade absurda de tomar uma bela taça de vinho (ou várias) e dar goles enormes na cerveja artesanal preferida. De preferência, beeeeem gelada. Eu ficava me perguntando como eu iria aguentar ficar nove meses ou mais sem o meu hobby, que encadeava vários outros, como receber amigos, dançar, e sair por aí sem rumo, junto com a Inês.

Essa privação inicial me deu uma rebordosa danada, que certamente se acentuava com os efeitos dos ovinhos de progesterona, que eu vinha colocando desde a semana anterior. E com os meus anseios, evidentemente. Era uma sensação tão estranha, uma mistura de “agora é irreversível” com “será que vai dar certo?” e relampejos de mini desespero: “e se eu não aguentar?”.

Inês resolveu me acompanhar na tortura. Não bebeu um mililitro de álcool. Entre Virgin Marys, taças de suco de uva imitando vinho e cerveja zero (argh! Hoje, só de pensar, que ojeriza!) os dias iam se passando. Uma longa espera sem resposta. Tudo poderia estar acontecendo aqui dentro e eu não tinha como saber. “Você ficou aí, embrião? Sobreviveu?”.

Havia muitos sintomas que pareciam ser de gravidez: seios (e tudo mais!) inchados, cansaço, enjoo, mudanças de humor. Como poderiam muito bem ser a força da maldita progesterona. Óbvio que eu já tinha entrado na internet, lido as reações adversas do remédio e visto que, entre elas, além de enjoo, sonolência, inchaço, tinha depressão. Óbvio que fiquei nervosa. E óbvio que rolaram períodos deprê, sim.

A noite era mais uma noite. Maldormida, pra variar. Cheia de fantasmas, com os quais fui aprendendo a lidar, como se fosse uma criança assustada, trancada sozinha em casa. Eu não estava mais acostumada a chegar do trabalho e ficar quieta. Ver televisão, ler um livro. Arrisco dizer que há anos não fazia isso, tudo era agitação, talvez até pra fugir dos meus próprios pensamentos, de mim mesma. Do vazio que me acompanhava desde muito cedo e do qual eu tentava me esquivar.

Não era a bebida, não era a diversão que me faziam falta. Era a proximidade do vazio. Pavor de me deparar com ele. A má notícia é que era inevitável. Foi dolorido. Aterrorizante. E um processo consciente. Eu sabia o que estava acontecendo.

Aí… A noite acabava. Uma batalha vencida. Sofrida, mas possível.

Cada manhã era mais um risquinho na contagem interminável dos doze dias. Doze dias…!! A curiosidade inata já seria um fator que me impulsionaria a querer saber se tinha dado certo. Só que era mais que isso. Era o meu traço controlador não aguentando não ter a mais vaga ideia do que estava acontecendo, o medo que ia tomando conta – de não conseguir e de conseguir também, vejam que dúbio. Era a minha vida que estava ali, e sob uma perspectiva bem estranha.

Não demorou muito e lá estava eu, novamente, vidrada nos fóruns. Está com dúvida sob qualquer coisa relacionada à fertilização e gravidez? Com certeza você vai encontrar dezenas de mulheres com as mesmas inquietações – até mais complexas – na internet. E outras tantas dando opinião. Nos fóruns as pessoas torcem juntas e lamentam se a história é triste. Lê-se: se o positivo para a gravidez pós fertilização não rolou.

Elas dividem sintomas – quando eu não tinha algum listado, já me preocupava -, conversas com médicos, experiências com outras tentativas – m-e-d-o -, sonham juntas e se encorajam. Nos tópicos, havia mulheres que tinham colocado o embrião na mesma semana que eu. Umas não aguentaram e fizeram teste de farmácia antes. O combinado com a médica era um exame de sangue, doze dias depois. E por mais que eu me descabelasse de tanta ansiedade, eu segurei. Ou melhor: a Inês me segurou. Me fez prometer que eu jamais faria sem ela – isso eu não faria mesmo. E que a gente não se arriscaria antes.

Na verdade, ela ficava me enrolando: “a gente faz no sexto dia”. Aí chegava o sexto e ela pedia para esperar o sétimo. Na internet, muitas faziam antes e tinham respostas positivas. Outras não. Eu tinha certeza de que fazer antes me deixaria tão devastada, que não fui em frente por covardia mesmo, falta de coragem.

Eu pensava na gravidez – em estar ou não estar grávida – o tempo inteiro. E dava graças por ter que trabalhar todos os dias. Era a forma que eu encontrava para me distrair desse mundo paralelo.

No nono dia, os cheiros começaram a vir muito fortes. Era alguém pisar do outro lado da redação e eu já sentir. Comida, chá, tudo. Praticamente, meu olfato estava biônico. Enjoo, inchaço, humor, cólica, tudo poderia ser só a progesterona. O cheiro não! Essa sensibilidade toda era gravidez. Só podia. E eu ia ficar na curiosidade.

Nem na noite anterior ao exame de sangue eu desbravei o pacotinho e abri o teste de farmácia. E olha que a Inês tinha comprado o melhor, um que era sensibilíssimo, super power. Se eu estivesse mesmo grávida, ele diria. E se eu não estivesse? Como seria a minha noite? Não! Ficou combinado que a gente faria quando acordasse, tudo certinho: primeiro xixi da manhã. (Até parece que eu consegui dormir direito).

Acordei antes das seis. Me sentia diferente, não sei explicar. Resolvemos fazer. Era um teste digital, que dizia até de quantas semanas você estava: uma, uma a duas ou duas a três. Eu tinha lido que o resultado sairia em alguns minutos e poderia até ser antes, só que sem a especificação das semanas, que depois viria. Tenho certeza de que não demorou muito. No tempo cronológico.

Meu coração foi na boca, como poucas vezes. Batia muito, muito forte. A Inês ali, como sempre. Veio antes.

Grávida. Eu estava grávida. A gente estava grávida. Um tempinho depois, o “laudo” completo. Grávida! Duas a três semanas. Tinha dado certo.

1181ACD4-AFC3-425C-B424-4CC3649F284B

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s