Os primeiros dias

Eu já contei que, quando a gente implanta o embrião no endométrio, não dá pra sair por aí dando cambalhota nos dias que se seguem. É um repouso relativo, embora os fóruns tenham me mostrado que muitas mulheres deixam até de trabalhar. Nossa! De repente, o trabalho passou a ser a minha maior distração. Válvula de escape de tantos pensamentos…

Lógico que passei a ser bem mais cuidadosa comigo. O embrião tem que fazer a nidação, ou seja, se fixar. E ele não iria conseguir realizar o feito se eu ficasse saracuteando por aí. A Inês, de novo!, foi perfeita: em casa, eu não levantava pra pegar meio copo d’água. E o nosso quarto fica no segundo andar do apartamento. Ela subia e descia, ia de um lado pro outro. Cuidando, cuidando…

Com a gravidez confirmada, começávamos a pensar no que fazer para que ela se desenvolvesse da melhor forma possível. A minha mãe sempre falou sobre a acupuntura e que, no lugar onde ela fazia, tinha um “especialista em grávidas”. A médica deu o aval e, logo na primeira semana pós positivo, comecei a terapia das agulhas. Eu não tenho condições de avaliar no que exatamente a acupuntura contribuiu, embora desconfie que tenha ajudado bastante. Sei que agarrei religiosamente a dica da minha mãe – um presente também, ela faz questão de pagar cada sessão, que estou fazendo até hoje, toda semana.

A minha mãe foi a primeira a saber que estávamos grávidas. Ela era, de longe, a pessoa mais entusiasmada com o nosso projeto. Conforme avançávamos, mais ela se envolvia. Evidente que, no dia do exame, ela também não tinha dormido direito e aguardava ansiosamente uma notícia. Seis e meia da manhã e eu liguei pra ela. Do outro lado da linha, não teve nem oi. “E aí?”.

A minha relação com a minha mãe tinha mudado muito nos últimos meses. Talvez porque a minha relação comigo também estava mudando. E a possibilidade de ser avó de uma neta da filha dela (no caso, eu) talvez tivesse transformado a perspetiva de quem provavelmente achava que, por eu estar casando com uma mulher, não iria ter filhos. Eu sempre quis ser mãe. Mais do que casar. Se eu atingisse determinada idade e ainda não tivesse achado uma pessoa que me inspirasse a construir uma vida junto, teria feito uma produção independente. De repente, quando nos reencontramos, casar era inevitável, e fazer uma família com a Inês passou a fazer todo o sentido.

Além da acupuntura, marcamos uma nutricionista, indicada pela nossa obstetra, que só iria assumir o pré-natal depois das doze semanas, mas como ela já era minha ginecologista e tinha indicado a médica do tratamento, eu pedia dicas pra ela. A gente não fazia ideia do que podia ou não comer e ela ajudou bastante dando dicas. Só que também não imaginávamos que a dieta que ela passou não seria suficiente para aplacar os enjoos de tormenta que me acometeram. Logo descobri que, se eu ficasse pouco mais de uma hora sem colocar nada na boca… a náusea era certeira. E dominante.

Primeiro, eu só tinha vontade de fazer xixi e comecei a dormir mais cedo até, o que pra mim era um enorme ganho evolutivo. Vinha a tal da angústia também, que acredito que se tratava de um misto de progesterona com o meu despertar sobre mim mesma, que ficava mais intempestivo. Não era só a maternidade. Era a maternidade, com um tratamento, com duas mães, com o “e se eu não aguentar?”, adicionado ao: “como vai ser daqui pra frente”, com sentimentos que eu nem sabia o que eram, com o meu próprio preconceito também. Esse último, fui identificando mais pra frente.

Não demorou para eu ganhar o superpoder do olfato biônico e sentir cheiro de absolutamente tudo. À distância. Como um caçador na floresta. Poucas pessoas sabiam, principalmente no trabalho, e alguns perfumes foram ficando insuportáveis. Juro que estou escrevendo isso com as caras dos donos dos perfumes vindo à minha mente. Logo a vontade absurda de beber foi sumindo e dando lugar a um nojo só de saber que eu e a bebida estávamos no mesmo recinto. A cerveja sem álcool, que mencionei alguns posts atrás, será um trauma eterno. Tive tanto trabalho em pesquisar as que tinham no mercado, achando que me serviriam durante toda a gravidez, sem prever que… argh! Ânsia só de lembrar.

Eu perdi (ou ganhei, né?) algumas sessões de análise falando da angústia por estar me sentindo privada de atividades que eu gostava, como sair por aí sem rumo, cheia de disposição, de tapas em tapas, bar em bar. Eu e Inês éramos mestras nisso. Ajudou demais a Inês ter parado de beber também. Sei que foi um sacrifício pra ela. Pelo menos ela reduziu bastante o teor etílico e hoje toma uma taça, um copo e zero me incomoda. Contanto que depois ela escove bem os dentes, principalmente se tiver tomado cerveja. (Será que isso vai passar depois que a Antonia nascer?).

Conforme as semanas iam passando, maiores e mais frequentes eram os enjoos e a exaustão sem motivo algum. Bastava andar três passos, dentro de casa, e sentir o coração disparado. Eu tinha dificuldade em acordar, ia pro trabalho me arrastando e nem sempre conseguia ficar até o fim – eu entro tarde, às três e saio depois das onze da noite. Ainda que fosse um esforço, me distraía. Ah, importante! Aconselho contar sempre para um chefe, mesmo no começo. Principalmente no começo. É a parte mais sofrida e pode ser maravilhoso ter um aliado. Tive a sorte de ter uma aliada. Um bênção!

O fim de semana era mais difícil. O tempo livre como se desenhava nessa situação me colocava em contato direto, intrínseco comigo mesma. Sem aquela nossa gama de atividades que começavam na sexta e… ops! acabou o domingo, eu não conseguia fugir de mim. Fui entrando mais em contato com o meu interior. E com o meu vazio, só meu. A Inês não saía de perto e era companheira até dizer o talo, só que, quando eu entrava no quarto escuro, solitário que só.

Com o passar das horas, ela, a temida angústia, chegava e ia ficando mais forte. Era enjoo, falta de disposição, incômodo, angústia. Cadê aquele amor, meu povo? E a tal plenitude? Aliás, cadê eu??? Por que a meu corpo está cada vez lento e os meus pensamentos cada vez mais traiçoeiros? Por vezes, julguei que não conseguiria aguentar.

2 respostas para ‘Os primeiros dias

  1. Lindo acompanhar tanta transformação em você. Mas quando a gravidez foi em mim, também não achei só alegria. E às vezes chorava sem explicação. Não se cobre. Não se culpe. E não expulse os sentimentos que parecem que chegam na hoea errada. Abraça tudo. É tudo aprendizado. E a honestidade com os sentimentos vai ajudar quando a Antonia chegar. Até porque nem tudo vai ser lindo depois também. E mesmo assim, é uma grande e maravilhosa aventura. Aproveitem. Beijos nas três ❤️

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