Hello, stranger!

Aí quatro dias antes da implantação do embrião, você começa a colocar ovinhos de progesterona in loco. De manhã, de tarde e de noite. Ainda tem que ficar deitada uns dez minutos para a meleca não se desfazer logo ali. E ela se desfaz ao longo do dia, é péssimo! Roupa íntima pra que te quero…! Tem a implantação e os doze dias de expectativas, coroados com os hormônios extras, pra virar um momento beeeem delícia. Dia D: positivo ou negativo? Se negativo, suspende o tratamento e vá pro fim da fila, com todas as suas frustrações. Positivo? Por que não ter um pouco mais de paciência e esperar a primeira ultra em singelas duas semanas?

Quem leu alguns dos posts já deve estar adivinhando o que eu fiz: táca-lhe fórum, o oráculo! Os relatos vão dos mais felizes e agradáveis, sobre esperar e finalmente ouvir o coraçãozinho do embrião bater, até chegar lá e descobrir que não tem nada ali dentro. Ou que até tem, mas sem sinais vitais. Meodeos! Precisava ser a louca das comunidades cibernéticas?

A conta da FIV funciona assim: quando você pega o resultado do beta (betaHCG, o exame de sangue – as mulheres dos fóruns chamam assim e eu passei a chamar também), já são quatro semanas de gravidez. A primeira ultra foi com seis semanas, na própria clínica da fertilização. Inês e eu, de mãos dadas.  Foi um alívio tão grande! Ela estava ali, o coração batia. E eu, que não sabia se iria ficar emocionada, percebi lágrimas escorrendo involuntariamente. Uma sobrevivente e guerreirinha essa menina. Notem que agora eu falo ela, menina, mas não foi de imediato. Teve um trabalho ali pra eu deixar de viver a dicotomia de pensar que a nossa filha estava ali e não um corpo estranho. Isso levou tempo!

Eu não tenho ideia se outras mulheres que ficaram grávidas sentiram isso. Pra mim, nos três primeiros meses, além do enjoo na alma (sério, não era só uma náusea), uma falta de energia atroz, eu sentia um desconforto que não conseguia explicar. Era como se, dentro de mim, tivesse um corpo estranho. E só um corpo estranho, não a nossa filhinha. Eu pensava nisso e me vinha um desespero. Um quase ataque de pânico, que se intensificava quando eu também me lembrava da quantidade de hormônio extra que estava entrando. Foi assim por vários dias. Vários longos, intermináveis, temidos dias. “E se for assim por nove meses? E se eu passar o tempo todo sem me identificar com o bebê que eu estou carregando? E se eu não aguentar?”.

“E se eu não aguentar?”. Quantas vezes vocês já não leram isso aqui nesses posts? Certamente, um número bem menor do que a quantidade de vezes que eu mesma me fiz essa pergunta. Um corpo estranho. O milagre da vida e eu encarando como um corpo estranho. Era esquisito estar grávida. Hoje, arrisco afirmar, era esquisito não estar no controle como antes e, principalmente, era esquisito crescer. A minha existência nunca mais seria a mesma e eu estava totalmente à prova. Só que com um embrião de vida se desenvolvendo em mim.

O dia da ultra foi um alívio, porém não me despertou o senso maternal e o amor incondicional, o que me gerou culpa. Por outro lado, olha eu começando a ser mãe: minha filha não tinha nem sido promovida a feto e eu já estava com culpa. Ainda faltavam seis semanas para as doze, o aclamado fim do primeiro trimestre, quando, diziam (a essa altura, eu já não acreditava mais no que me diziam), a situação começava a desanuviar e o risco de perda diminuía sensivelmente. Enquanto isso, ficávamos reticentes em comprar coisinhas, em contar pras pessoas, enfim, naquelas ações que ajudavam a concretizar mais a gravidez. Portanto, era só a confusão emocional e física mesmo. Foi assim por mais um tempinho (uma leve eternidade).

A Inês também tinha as questões dela. A gente conversava bastante, mas havia pontos que só ela poderia sentir e outros que cabiam exclusivamente a mim. Mais pra frente eu vou voltar a isso. Afinal, embora fôssemos unidas, coladas, quase simbióticas, ainda éramos duas pessoas distintas. Não chegamos a nos distanciar, de forma alguma. No entanto, os hormônios, o medo, as sensações, me davam a impressão de estar terrivelmente sozinha. Já ela nutria o sentimento de impotência ao me ver tão vulnerável. Eu nunca precisei tanto dela. E ela nunca esteve tão perto de mim.

Uma resposta para “Hello, stranger!

  1. Demais o seu blog, Maíra!! Parabéns pela coragem, pelo casamento, pela filha, pelos lindos textos… 💚 Estou te conhecendo à distancia e vendo que aquela menininha linda que eu conheci há tanto tempo se transformou numa pessoa incrível! Fico muito feliz por você!
    Grande beijo
    Marília

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