A não-rotina

Muitas das minhas amigas disseram que não tiveram muitos contratempos na gravidez. Só um sono implacável, capaz de fazê-las dormir sentadas. Eu sempre briguei contra o sono, até mesmo quando deveria recebê-lo calorosamente. Isso é meu de infância e se perpetuou na vida adulta. Ficava fantasiando – e sofrendo por antecipação – o instante em que eu fosse aplicada pela sonolência arrebatadora. “Algo me controlando? E logo o sono?”. Mas… não rolou!

É, esse item eu não tive. Agora, não preciso enumerar aqui os outros trocentos efeitos colaterais da gestação, né? Só pra reiterar aqui que gravidez não tem receita. Quanto mais oriunda de FIV. E ainda sendo comigo. É ótimo ouvir relatos e depoimentos das amigas, de parentes etc, porém, não adianta achar que é possível antever os sintomas. É no susto mesmo, amigos. Sem avisar. (Isso vindo da pessoa que leu 800 zilhões de tópicos de gravidez na internet).

Nossa confirmação foi no dia nove de junho e a Copa do Mundo começou dia quatorze. A maior parte dos jogos era de manhã e no começo da tarde, antes de eu entrar no trabalho, às três. Como a Inês saía de manhã, as partidas se tornaram uma companhia estimada. Pra ser mais explícita: pra distrair, já que não focava em nada, me tornei telespectadora assídua do Mundial da Rússia.

E não é que veio a calhar? Na estreia, estávamos na reunião de pauta do jornal e, tentando dar um viés diferente, sugeri que falássemos das reações do Putin no cinco a zero que o time da casa contra a Arábia Saudita. Sobrou pra eu escrever, editar e narrar essa espécie de crônica, o que me rendeu uma por dia, às vezes duas, ao longo de toda a Copa. Aí o link, pra quem tiver curiosidade.

http://g1.globo.com/globo-news/jornal-das-dez/videos/v/putin-nao-disfarca-alegria-com-goleada-da-russia/6810752/

Opa! Já não me sentia tão inútil, nem em casa, nem no trabalho. E tinha algo mais pra pensar, além da gravidez – e de como me livrar do enjoo terrível que, umas poucas semaninhas depois, veio com tudo.

Por volta da sexta semana, a rotina (se é que se pode chamar isso de rotina) passou  a ser: acordar – ou abrir o olho, porque não conseguia sair da cama -, receber alguma comidinha preparada e carinhosamente pela Inês, que também se dedicou a fazer lanchinhos pra eu levar pro trabalho. Eu entendi que, mesmo nauseada, ficar sem comer me fazia passar mais mal ainda. Isso porque a nutricionista tinha recomendado intervalos de três horas entre uma refeição e outra. Se eu esperasse três horas, teria que deitar numa maca. Meu Deus, que sensação terrível! Para, que eu quero descer.

Eu não desci. Continuamos a colocar os hormônios, que em mim causavam desânimo, mini depressão, oscilações de humor e enjoo mortal – sem vômito, que até daria uma aliviada. Assim foram se desenhando as primeiras semanas, as mais delicadas da gravidez. Apesar dessa lama toda, Antonia estava lá: firme e forte, de desenvolvendo.

Era curioso como eu chegava a questionar minha decisão, mas ficava desesperada quando acontecia algum incidente que poderia colocar a gestação em risco. Tipo o tombo que eu tomei no trabalho, no meio do corredor, ou as puladas da Maria, uma das nossas cachorrinhas, em cheio na barriga. Cada evento era mais uma ultra pra ter certeza de que estava tudo bem. Ah, teve uma gripe forte no início. Imunidade de grávida vai pras cucuias e, sem poder tomar remédios mais fortes, fiquei com medo de prejudicar a pequena, que pra mim ainda era só um embrião crescendo, porém, nessas horas, a possibilidade de colocar tudo a perder me deixava muito nervosa.

Nossa casa tem uma varanda grande, que bate sol, de onde se vê a mata. Só que meu mundo estava tão cinza, que eu não conseguia nem sair lá fora para aproveitar essa bênção. Era um dia depois do outro. E já naquele momento eu me indagava quanto ao que seria de mim sem a Inês.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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