Cinquenta tons de preconceito e desinformação. E o bloco dos sem noção!

Eu sabia que não seria bolinho (a Inês adora quando eu falo assim). Já tinha rolado uma prévia de reações adversas no nosso microcosmo. Tipo quando explicávamos aos amigos nossas intenções sobre filhos, antes, durante ou depois do tratamento, sem a implantação, e alguns (poucos, graças!) perdiam excelentes oportunidades de ficarem calados, com a brincadeirinha babaca: “Qual das duas é o pai?”. Sim, em 2018, houve quem pagasse esse mico. Não foram tantas as vezes, nossas amigas e amigos nos acolheram com aconchego, como de costume.

Ou na situação em que uma pessoa querida do trabalho, para quem eu contei antes que estava grávida, sentou ao meu lado e disse que achava que os outros consideravam pior uma gestação com duas mulheres do que uma produção independente. Entender aqui “pior” como menos socialmente aceita. E eu, já grávida, sensível, pelejando com as minhas próprias confusões internas. Tem tanta gente que vive uma vida inteira de mentiras por que não tem coragem de se assumir. Ou se casa com qualquer pessoa para procriar. Tem pai ausente, que abandona. Isso é tolerável, certo?

É, vinha chumbo por aí. A galera fala, opina, pergunta o que vem à cabeça e, no começo, eu ouvia, respondia, argumentava, como uma paspalha desempenhando um papel que eu não precisava desempenhar. Por despreparo mesmo. Eu só não realizava de cara o quanto aquilo me fazia mal.

Teve a família. Nem eu, nem a Inês possuímos parentes próximos que são gays, quanto mais com filhos. Viemos de raízes heteronormativas e machistas, sim, senhor! Quando assumimos que estávamos juntas, viramos pauta. Antes mesmo da Inês, por muito tempo, eu carreguei uma culpa enorme, como se, por  não seguir o script, estivesse fazendo algo de errado. E isso persistiu em boa parte dos primeiros dois anos com ela. Quantas vezes ouvimos: “não é fácil pra mim (ou pra nós, plural) essa ‘situação’ (sic) de vocês”. Não éramos poupadas.

Ah. impossível se esquecer da campeã de ocorrências, a opinião gratuita: “vocês se expõem demais”, geralmente vinda de uma pessoa com a foto de perfil na rede social debruçada no marido/mulher. Eu me casei com a pessoa mais incrível que eu poderia – ouso até considerar que ela também – e tenho certeza de que, se fosse dentro das regras, estava todo mundo anunciando a nossa união até pro desconhecido. Sim, a gente se expõe. Vai continuar se expondo. E tem mais vontade ainda de se expor quando ouve um julgamento desse. Não é só pra demonstrar amor – infelizmente, não pode só ser esse motivo ainda -, é também por luta, por resistência.

Ao começarmos a falar dos nossos planos, houve parente que se encontrou à vontade para puxar a “sugestão”: “Por que não adotam?”. Como se nós duas não tivéssemos direito de construir uma família da forma como quiséssemos. E por que não tecer comentários sem filtro, não é mesmo? Não vou enumerar as atrocidades aqui, porque não convém. Agora, caso a gente não goste e responda, vira “a reativa”. Li isso ontem mesmo no grupo de Whatsapp do meu lado da família. O repertório se repete, minha gente! E tem que ser forte, pra não sucumbir.

Esses foram os preparativos que antecederam o resultado final. E, quando ele chegou, foi difícil para alguns enxergar a nossa gravidez como nossa, da Inês e minha. Foi assim que elaboramos: nossa gravidez. E essa é uma grande questão, principalmente para a minha mulher, que experimenta na pele os julgamentos, ainda que velados. Ela se sente grávida, está completamente, emocionalmente ligada à nossa filha e a mim. No entanto, por ela não carregar a barriga, nem todo mundo entende assim. Só que quando essa falta de compreensão vem de dentro, de quem a gente espera apoio, o tombo é grande.

A Inês aprendeu rapidamente a se colocar dentro da nossa nova dinâmica. Entendeu o lugar que ocupava e, pá, ocupou! Como ela me surpreende… Isso fluía muito bem entre a gente. E ai de alguém que insinue algo diferente. Eu não costumo levar pra casa, sobretudo quando é alguma injustiça em relação à Inês. Mas, no começo, não sabia como me colocar se era o meu calo que apertava.

Foi assim na primeira vez que fui questionada sobre o cromossomo y dessa história. Quase décima primeira semana de gestação. Resolvo me livrar do silêncio e abrir pro povo do trabalho que senta perto de mim, já deixando claro que não era mais segredo, podia espalhar. Quando voltei de uma reunião, tinha uma mini fila querendo dar parabéns. Agora sim, eu estava grávida.

Num desses primeiros abraços corporativos, o interrogatório em seguida: “E o pai? É de onde?”. Alto, ali, na frente de todo mundo, como se estivéssemos tratando da previsão do tempo. Bem, eu sou casada com uma mulher e todo mundo sabe disso (lembram do “você se expõe demais?”). Eu tinha me empenhado para falar abertamente sobre nossos planos para as pessoas do trabalho, até para não provocar surpresa – hoje talvez não repetisse a conduta. O que os outros têm com isso?

Não foi suficiente para evitar a pergunta. “Pai? Sério que estão me perguntando isso?”, indaguei a mim mesma. O mais chocante é que o inquisitor/curioso/engraçadinho é gay, mas não levanta bandeira, óbvio. Talvez ele quisesse ter um filho e não tivesse coragem, sei lá. O que eu deveria ter respondido? “O pai é do mesmo armário onde você se esconde”. Não, não tive essa presença de espírito. Esclareci, com a calma que pude encontrar: “Não é pai, é doador”, quase professoral, ainda que fosse lógico. Eu deveria ter feito uma camiseta com essa frase: “Não é pai, é doador”, pra não precisar repeti-la, muito embora: 1) ninguém tinha que perguntar e 2) é falta de informação, de bom senso ou todas as alternativas? Isso tem até em novela!

O diálogo foi piorando. “É que é esquisito, né? E se a sua filha estiver andando na rua e encontrar um homem que tenha a cara dela?”. Eu: “Acho bem difícil de acontecer. Pegamos de um banco americano”. Não bastou para um freio: “mas e se ela ficar muito famosa?”. Eu deveria ter interrompido essa total escassez de noção, que além do desconhecimento, carregava uma pitada de maldade. Deveria, porém não fiz. Em vez disso, continuei me justificando. E me senti exposta, como se tivesse sofrido um nocaute. Uma angústia que me doeu.

Naquela noite eu não dormi. Tive desespero, ataque de ansiedade, como se eu estivesse encurralada. Caminho sem volta. Questionei a nossa decisão. Lamentei por mim, pela minha mulher, pela minha filha, que teria uma vida de enfrentamentos. Acho que, principalmente, me vi vulnerável, na berlinda, uma posição em que eu jamais pensei que seria colocada antes.

Foram algumas cenas como essa, que vou descrever no próximo post. Ainda ia incomodar bastante. Eu demorei a entender o que tudo isso significava pra mim, por que me feria tanto e por que eu não conseguia reagir. Ponto pros levianos, pros julgadores, pros preconceituosos, pros sem autocrítica, que conseguiram me deixar no chão. Nocaute, como eu disse. E ia levar um tempo pra levantar.

Melhora. E que também vão ter reações emocionantes e maravilhosos, várias de lugares não esperados. Prometo!

7 respostas para ‘Cinquenta tons de preconceito e desinformação. E o bloco dos sem noção!

  1. Meninas, os desafios são muitos e gigantes. E não serão só de vocês. A Antônia também será guerreira, deverá ser treinada em casa, com cursos especiais de amor, compaixão e, se precisar, de guerrilha. Rsrs. Fortalecemos emocionalmente nossas crianças, armamos elas de argumentos e enxugamos as lágrimas quando elas são atingidas… às vezes por distração. Mas de uma coisa eu tenho certeza absoluta depois desses 6 anos: não há nada que o amor não supere. E tenho leve desconfiança que 2 mães têm uma carga de amor perigosa. Rs. Keep Walking. Estamos juntas! Beijos, Malu Mercury

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  2. Adora ler as coisas que escreve.
    Parabens.
    Que Antonia(adorei o nome)venha com muita saude,amor ela ja tem.
    Bj grande
    Continue escrevendo.

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  3. Adoro ler as coisas que escreve.
    Parabens.
    Que Antonia(adorei o nome)venha com muita saude,amor ela ja tem.
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