Um palpite a qualquer hora

Você, aí, que está grávida, já esteve, é mãe: duvido enumerar a quantidade de vezes que um ser humano, desconhecido ou não, deu uma opinião sobre a sua gestação, seus hábitos, a criação do seu filho, sem ser perguntado. Eu tinha sido avisada sobre o achômetro desgovernado, mas não imaginei que seria tão sem filtro. Gente, cadê a autocrítica, meu povo? O exame de consciência?

Antes de mais nada, vou explicar: eu sou das pessoas mais curiosas e inquietas que eu conheço. Ah, e insuportáveis também! Sou aquela que fuxica, lê, pesquisa, fuxica, lê e pesquisa mais um pouquinho quando algo interessa. A paciente que vai ao médico com praticamente todas as respostas e explicações que ele vai dar na cabeça. E não pensem que considero isso um mérito, não. É um p-o-r-r-e!! Coitada da Inês…

Em meu favor, advogo com apenas um argumento: de forma alguma, afirmo o que não tenho certeza, sobretudo para outras pessoas que, provavelmente, têm um repertório mais vasto que o meu.  Bem, essa sou eu. E a gravidez me pôs em contato com gente com a postura bem diferente da minha.

São vários os perfis. A começar por aquele exemplar que nunca engravidou, nunca foi pai ou mãe, e, no entanto, chega pra você, que está enjoando há meses e já tentou até simpatia, e te manda um macete infalível:  “olha, tem que tomar suco de melancia”, como se fosse a maior novidade, a grande informação que vai mudar o destino dos seus enjoos. Na maioria dos casos, a intenção é boa. Só que elas vêm de montes, de tantos lados.

E as recém-ex-grávidas? Elas se dividem entre as que olham pra você como se fosse um et, porque, segundo elas, não tiveram nenhum efeito colateral, e as que profetizam tudo, absolutamente tudo o que você vai experimentar nos próximos meses. Estou grávida há quase quatro. Hoje, posso bater o martelo, com propriedade, e dizer: cada uma tem a própria experiência, amigas. Pelo amor, não façam com os outros o que vocês detestavam que fizessem com vocês.

Aproveito que entramos nesse assunto para deixar registrado um outro ponto que aprendi: grávida desenvolve algum mecanismo de esquecimento sobre o que passou. Só pode! É chato, irritante – ainda mais quando a gente está com os nervos à flor da pele. E se você já ficou grávida e ousa falar que a descrição não bate, pode parar de ler: eu não acredito em você!!

Agora, isso tudo pra mim não foi nada perto das perguntas, comentários, julgamentos, palpites e afirmações descabidas que eu tive que escutar quando anunciei que estava grávida. Os dois casos do post anterior não foram os únicos. Era receber o parabéns e estar sujeita ao interrogatório. De gente que, muitas das vezes, não tinha a meeeenor intimidade comigo e nem interesse algum em passar pelo processo. Era curiosidade pura e simples. “Como vocês decidiram quem ia engravidar?”; “De quem é o óvulo?”; “Foi banco? De onde? Como escolheram?”; “Quanto custou o tratamento?”; “Engravidou de primeira?”. Gente! Eu não me lembro de ter perguntado pra ninguém que foi ter filho se a criança foi desejada, a posição que fizeram, se os dois gozaram ou só o cara.

O pior não foi isso. Eu me sentia tão invadida com essas indagações e, ao mesmo tempo, não conseguia me proteger. Eu respondia, como se tivesse a obrigação, como se tivesse devendo. E não eram só esses questionamentos, não. A curiosidade se aliava à falta de conhecimento, que culminava em surpresinhas como: “E o pai?”; “Qual das duas é a mãe?”. QUAL DAS DUAS É A MÃE? OI??? Era um abraço efusivo e… “Qual das duas é a mãe?”. Eu reconheço que o assunto é pouco difundido – por isso mesmo, cá estou -, porém, SOCORRO! E não tinha idade, não, tá? Nem falta de instrução. Só de noção mesmo.

Ah, teve uma outra que foi ótima também. Eu falo isso hoje, porque, na hora, eu ficava devastada por dentro. Seguindo o “Como vocês decidiram quem ia engravidar”, veio um: “Você sabia que a Inês também pode engravidar do seu óvulo?”. Não!!!! Cê tá brincando!!!??? Estamos fazendo tratamento há meses e eu nem desconfiava…! Meodeos! Será que o povo realmente acha que a gente não estudou, não relativizou e pensou muito antes de tomar essa decisão enorme na nossa vida?

E a reflexão, em tempo real, COM VOCÊ AO LADO? recebe a notícia, fica feliz, e te surpreende com a pérola interrogativa: “Mas como você vai saber se o doador (a essa altura eu já tinha corrigido o termo pai) não é um ladrão?”. Calma! Respira, Maíra! Novamente, me faltou a rapidez, a presença de espírito, pra devolver. Estava sendo inquirida por uma mulher cujo pai dos filhos é… bem, deixa pra lá.

Aliás, tem questionário sobre o parceiro se uma mulher que engravida naturalmente libera a boa nova? “Marque um x se ele é (a) honesto, (b) mau caráter, (c) tem bafo, (d) boa família, nenhuma ou todas as respostas acima.

Isso tudo pegou fundo aqui. Sofri, não dormi, tive ataque de ansiedade, me coloquei em xeque. E, evidentemente, fui elaborar na análise o que isso queria dizer. Aos poucos compreendia que o fato de ter virado “diferente” me deixou vulnerável. Eu não sabia ser vulnerável. Eu estava à margem. No fundo, eu também estranhava essa configuração nada tradicional e não estava nem um pouco preparada para enfrentar maldade e desinformação. O jeito? Encarar isso de frente. Falar sobre os meus medos e limitações. Insistentemente, exaustivamente. O quanto fosse necessário.

Eu caio. Mas levanto. E levanto forte.

 

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