Eu nasci assim, eu cresci assim

Desde que eu publiquei os dois últimos posts, amigos, conhecidos, leitores do blog (sim, o blog tem leitores que nem me conheciam. surpreendente!) manifestaram surpresa e indignação com a falta de noção alheia. E olha que eu resumi a narrativa! Acontece que a gente não pode se ater à bolha na qual a gente está inserido. Existe preconceito, sim! Não só com relacionamento entre indivíduos do mesmo sexo. O Brasil é um dos países com mais intolerância ao diferente do mundo. E sabem como isso muda? A começar, com as nossas atitudes.

Eu falo isso agora, mas quando me percebi naquela posição, eu, justamente eu, paralisei. Não só isso: me penitenciei. O mal-estar foi tanto – a ponto de ser físico -, que coloquei minhas escolhas à prova. Várias vezes. Como eu iria aguentar isso por meses? Com uma vida se desenvolvendo e crescendo aqui dentro? Aí eu tive um clique nada repentino! Às custas de muita análise (um luxo que pouquíssimos têm) entendi que a atitude dos outros me tocava fundo não só pela postura alheia. Era mais, muito mais do que isso. Um espelho. O preconceito dos outros tinha mexido com o meu.

A berlinda era novidade. Pudera! Sou filha do privilégio… Nasci branca, abastada, com boa aparência. Num país como o nosso, quer dizer que eu já vim com uma chave para abrir todas as portas. Fala-se tanto em intolerância às minorias, quando essa porção ínfima da sociedade, segregada do enorme contingente populacional, tudo pode. A gente não sabe o que é sufoco. Não sabe o que é receber olhar torto, enfrentar transporte público lotado, falta de vaga em hospital, não ter a certeza de que vai ter comida na mesa.

Na infância, adolescência também, estudei nas melhores escolas particulares, cultivei amigos que viviam nos mesmos poucos bairros concentrados numa mesma região da cidade. Nunca convivi com negros, a não ser empregados. Meus pais ensinaram a respeitar o mais pobre e a valorizar o que a gente tinha. Porém, era corriqueiro rir do gordo, do feio, do afeminado, do diferente. Eu mesma fiz, incontáveis (!!!) vezes. Diversidade? Demorei a pensar sobre isso.

Um meio oblíquo oferece destinos igualmente oblíquos. Crescer, estudar, fazer uma faculdade, ter uma profissão, casar, ter filhos. Etapas a cumprir. E eu passei a vida passando de fase, com louvor. Me cobrava demais e fazia de tudo para estar entre melhores e mais em tudo. Haja energia gasta e paz perdida.

Foi então que, aos dezoito anos, fiz uma escolha: cursar a universidade pública. Parece besteira. Pra mim, já era uma forma de não seguir o que se configurava naturalmente. De ter acesso à gente diferente, ainda que a faculdade pública concentre pessoas com educação de primeira. Educação de primeira, sim, por outro lado, raízes variadas. Felizmente! Depois veio o trabalho. Mais um universo plural. Ufa! Eu me lembro que eu fiquei deslumbrada com as enormes janelas, cheias de possibilidades. Isso! Era isso que eu desejava!

É, mas ainda tinha a origem. E as marcas que ela imprimiu na personalidade que se formou. No caso, a minha. O ser humano é um produto do meio, certo? Certíssimo. Ainda bem que agora eu tinha outros meios. Com o tempo, minhas amigas da vida inteira começaram a ficar “noivas”. Como num passe de mágica, os assuntos foram mudando, os interesses passaram a divergir. Era como se algumas delas (não todas) tivessem sido abduzidas e trocadas por meninas da década de cinquenta. E eu, que tinha entrado em contato com outras realidades, estranhei.

Outro dia minha mãe e eu nos encontramos com uma conhecida dela na rua, que tinha visto eu e meus irmãos quando éramos pequenos. A principal pergunta era: “e o fulano? casou?”; “E o beltrano, casou?”. “E você? Casou?”. Ou seja, a preocupação dela não era se eu tinha feito uma carreira, se era legal, respeitosa. Apenas se eu “casei”. Ela não é a única a pensar assim. De repente, eu enxerguei que o matrimônio, esse sacramento instituído pela Igreja e criado lá atrás, com fins econômicos, tinha virado sinônimo de realização na vida. Pelo menos ali, naquele nicho.

Como explicar para as suas companheiras da vida inteira que você não achava a menor graça em chá de panela, despedida de solteira (oi?), em rituais que mais pareciam que a figura em questão estava partindo para uma outra existência? Se vestir de branco, nomes na barra da saia para “desencalhar”, entrar numa Igreja, subir no altar e ouvir um discurso impessoal, colocar o sobrenome de uma outra pessoa, dar uma grande festa, paga pelos pais. Soava como obrigação, como em séculos antes. Às vezes, só me parecia faltar o amor. Esse não deveria ser o motivo de tudo?

Ao mesmo tempo em que eu tinha que fazer parte daquilo – e não condeno nem um pouco quem adora e acha maravilhoso, sonho – eu não me identificava. E não era por uma questão de sexualidade. Simplesmente, essa não era eu.

Só que eu não conseguia me sentir de todo confortável com isso. Os valores de onde eu vim estavam cravados em mim. Eu tinha culpa. Eu só não era capaz de prever que mais escolhas minhas também me trariam culpa.

Até que veio a Inês, essa mulher maravilhosa, que me ama exatamente como eu almejo e preciso, que conquistou tudo sozinha e que, como eu, também postergou a felicidade. Por que me esconder? Por que viver à sombra, como se eu estivesse fazendo algo de errado? Meu Deus, quantos deixam de ser legítimos consigo por medo?

A gente costuma dizer que nós duas demos as mãos e fomos, Inês e eu. E, confesso que, mesmo casadas, realizadas, independentes, volta e meia me vinha a pontada de incômodo. O meu próprio preconceito falando alto. Assim como gritou com a Antonia já aqui dentro. Era urgente olhar pra dentro e não mais pra fora. Rever (pré)conceitos. De uma vez por todas.