Segundo round

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As primeiras doze semanas são quase um espectro na gravidez. Um ritual de passagem. “Você vai ver quando passarem as doze semanas, vai começar a melhor fase”. Nossa, isso pra mim virou um mantra. Até porque, seria quando os hormônios malditos seriam finalmente suspensos. Eu mal podia esperar…

Fizemos a translucência nucal exatamente no dia em que a décima segunda semana se completava. Foi o sinal verde para a nossa obstetra, que assumiria o pré-natal a partir daquele momento (a médica da fertilização ficou com a gente até então, faz parte do protocolo – essa palavra me dá arrepios, mas eu continuo falando) . Pronto! Fim dos ovinhos de progesterona, três vezes ao dia. Havia uma esperança de que o tempo se abrisse. Eu nunca, nunca vou me esquecer desse tempo. E jamais vou subestimar o poder avassalador dos hormônios. Gravidez, estado de graça? Ah, tá…

De fato, melhorou muito nos dias que se seguiram. Até que um e-mail da médica mudou nossa sorte. O exame de urina acusou a presença de bactérias. Eu teria que tomar antibiótico por uma semana. Dos hormônios três vezes ao dia… para os antibióticos três vezes ao dia. Tá, isso eu poderia aguentar sem sofrer tanto.

O humor foi melhorando nos dias sem hormônio externo. O enjoo persistiu. Era um enjoo diferente de antes. Uma náusea, que culminava em colocar tudo pra fora. Era i antibiótico atacando o meu estômago. Pra piorar, peguei uma alergia, fiquei toda empolada e tive uma gripe daquelas. A cabeça começava a melhorar, porém a saúde me derrubava.

Fiquei dez dias de licença, em casa. Eu e as nossas duas cachorrinhas. Vez por outra, a diarista? Quando que eu conseguiria fazer isso nos três primeiros meses de gravidez? Eu ia trabalhar, mesmo que me arrastando, porque não podia nem pensar em ficar comigo mesma. A calma me angustiava. Eu já disse aqui o quanto eu temia o vazio… Só que dessa vez era diferente. Além de eu ter mergulhado nas minhas questões na análise (sempre levanto as mão pro céu por esse privilégio), me senti melhor, apesar do corpo não concordar com isso.

Dez dias. A Inês ia trabalhar e eu ficava lá, com as minhas fiéis companheiras, tão dedicadas a nós. Dez dias. Era o que eu precisava para selar o laço com o lar que nós duas tínhamos montado, juntas. Meu refúgio. Finalmente, eu tinha um refúgio. Um só, não. Eu também tinha estreitado a minha relação comigo, com a minha filha, crescendo dentro de mim, com as nossas escolhas. E sempre tinha a Inês. Há tempos eu não conseguia ficar em paz. Sem precisar do som alto e ininterrupto da televisão, até mesmo na hora de dormir.

Dez dias. No fim, eu não era mais a mesma de meses atrás. Nem de três semanas antes.

Voltei ao trabalho. Fui recebida com o carinho de amigos e colegas. Sei que muitos leram o blog. No corredor, uma menina de quem eu não sei praticamente nada, fez questão de me parabenizar. Abraço. Seguido do comentário: “eu também fiz tratamento!”. Eu: “Ah, legal”. Não pensei que fosse passar daí. Passou. “De quem é o óvulo?”. Respondi. Eu entendo que as pessoas tenham curiosidade, até por isso – e por outros tantos elementos -, existe o blog.

Porém, me coloco no lugar do outro. Não me veio à cabeça perguntar por que ela fez tratamento. Se a dificuldade estava com ela, com o marido dela, com os dois, se era mesmo marido, mulher ou produção independente mesmo. Sequer sei se o filho é menino ou menina. “Quanto tempo você tentou?”; “Colocou um ou dois embriões?”, “Trompa obstruída?”; “Porra rala?”. O que eu tenho com isso, minha gente?

Mas não me doeu. Achei meio bizarro e toquei o dia, que foi bem agradável. É, eu estava mais preparada para o segundo round. O cruzado de direita foi rápido. Sentada, editando uma reportagem, uma amiga de anos, que tinha me ligado durante a licença (gosta mesmo de mim, eu sei), se aproximou e perguntou como eu estava. Que alívio poder dizer, com toda a sinceridade, que eu estava bem melhor. Mostrei a barriga, uma ultra da Antonia, contei que ela era grandona. E tive que ouvir: “O pai era alto?”.  Percebi que eu corei. E pronunciei a sentença default, a essa altura, instantânea – vai, leitor, leitora, junto comigo, você também proferiu mentalmente: “Não é pai, é doador”.

Havia algumas pessoas em volta. Acho que elas também ficaram um pouco com vergonha da minha amiga. Felizmente, muitos já evoluíram. A vergonha alheia aumentou quando ela resolveu completar: “Hoje em dia, a gente nunca sabe o termo politicamente correto”. Politicamente correto? Ahn?

Decidi não retrucar. Não valia a pena. É daquele tipo que, apesar das melhores intenções, considera que o mundo está ficando chato, agora que não se pode mais “brincar”. Levei o episódio pra casa e descrevi para a Inês, que logo resenhou, com aparente falta de paciência para esse tipo de conduta: “Não é o politicamente correto. É o correto”. Sim, é o correto. Vou além: é o que não dói no outro, não ofende, não denota um hiato de compreensão. A tal empatia, que tanto falta nas relações humanas.

Querem que eu conte o melhor de tudo? Eu virei de costas, coloquei meu fone, retomei o trabalho e concluí, satisfeita: foi difícil, é um processo longo, árduo e que, certamente, vai me surpreender com recaídas. No entanto, eu tinha evoluído um nível na luta.

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