Precisamos conversar

gravida

Tem coisas na vida que a gente ouve, não dá muita importância, mas também não esquece. Eu nunca me esqueci quando uma amiga próxima me disse, depois de um elogio, que não conseguia se sentir bonita grávida. Eu lembro até onde estávamos. Ela lá, linda, reluzente. “Como pode falar uma coisa dessa?”, pensei. E disse pra ela: “Eu vou amar ficar grávida, vou me achar a mulher mais incrível do mundo”, avaliando, internamente, que essa minha amiga só poderia não estar bem com ela mesma. Como eu penso nessa cena hoje em dia!

A verdade que é… as pessoas não falam a verdade. Claro que tem gente, sim, que aaaaaamou estar grávida. É o que proferem a minha mãe e a minha sogra, por exemplo. Eu não sei se elas romantizam, se esqueceram ou se realmente foram tocadas pelo espírito elevado da gestação. (Ele existe? Me apresenta!). O que eu percebi nesses quatro meses é que pouca gente conta o que realmente se passou ou está se passando consigo.

Parece que existe uma obrigação em experimentar uma plenitude, um estado de graça. Sim, estar grávida é um milagre, ter uma vida crescendo, se desenvolvendo dentro de si é um momento único. Eu e Inês adoramos fazer ultra, justamente por causa disso: a gente vibra e se emociona com cada elemento diferente que aparece, cada movimento da Antonia. No entanto, será que não existe uma falsa construção, amparada por filmes, novelas, comerciais, redes sociais e o senso comum, de que a gravidez é a oitava maravilha? E, naturalmente, uma culpa se a gente não solta fogos o tempo todo?

Eu tive essa culpa. Logo. Quando recebemos o positivo, eu já estava colocando hormônios há uns vinte dias, cujos efeitos se somaram aos hormônios que o corpo foi produzindo por conta da gestação. Ali mesmo já foi um misto de alegria e medo e desconforto. Alegria, medo, desconforto, tudo ao mesmo tempo, desde então. Sei que a progesterona extra acentua a montanha-russa – que, por vezes, só fica na descida, sem perspectiva -,  mas, hoje em dia, quase todas as mulheres que ficaram ou estão grávidas com quem eu converso desabafam que não foi nem um pouco fácil.

Por que ninguém avisa? Minhas amigas que nunca passaram por isso ficam surpresas quando eu conto! Já experimentei semanas e semanas de um enjoo da alma, exaustão contínua, insônia, palpito considerar que uma mini depressão também. Imunidade baixa, fome com náusea, náusea com fome, zero vontade de sociabilizar, espanto com cada mudança do corpo, geralmente, da noite pro dia, no intervalo de uma olhada no espelho pós-banho. Oscilação de humor, amor e ódio pela pessoa que está o tempo todo do meu lado, ímpeto de arrependimento, de querer desistir. Até alergia com pele empelotada. Mais de uma até agora! E solidão, mesmo cercada.

Recentemente, já com dezesseis semanas, tive uma crise de ansiedade. Assim, depois de ter acordado e dançado pela casa, feito uma aula de hidroginástica com energia, admirado o sol batendo na piscina (e dado graças, porque há tempos eu não ficava desse jeito), cheguei em casa e meu coração começou a bater, descompassado. O que fazer numa hora dessas? A gravidez, por si só, já é tão solitária, que eu me recuso a enfrentar questões cruciais sozinha.

Mandei mensagem pra Inês, que estava numa reunião. Contatei a obstetra. Pausa aqui da descrição do episódio para dizer que a médica ou médico encarregado do pré-natal é uma pessoa crucial. Uma escolha que tem que levar em consideração requisitos essenciais, como a empatia, a receptividade, se o profissional é acessível, se está de acordo com o que se está planejando para o dia D do parto. Eu e Inês tivemos essa sorte, felizmente. Ela já era minha ginecologista há anos, foi quem indicou a médica do tratamento e, o melhor de tudo: o santo bateu com o da minha mulher, que também vive esse processo intensamente.

Pois bem, antes de conseguir falar com a Inês, senti um alívio só de ouvir a voz da nossa médica do outro lado da linha. Se o negócio piorasse, ela me passou um recurso. E, nessa situação, é importantíssimo estar munida deles. E aí eu interrompo de novo pra mais uma reflexão: não consigo deixar de pensar nas milhares de mulheres sem um décimo dos recursos que eu tenho, financeiros e emocionais. Nossa diarista está com a filha de 24 anos grávida em casa e me dá aperto quando ouço os relatos sobre a dificuldade em conseguir atendimento. Fora que o namorado sumiu depois que recebeu a notícia de que ia ser pai. Mãe solteira, com outros dois filhos e ninguém para dar suporte. Isso sim é problema. E é Brasil. Que tristeza!

Foi com a Inês que veio a minha catarse. Ela me ligou, já conhece o lado complexo das minhas profundezas. Falamos um pouco. O suficiente para eu desabar num choro que deveria estar preso. Chorei sem saber por que, já agradecendo mentalmente por tê-la, infalível.

Não consegui resposta imediata da minha analista (sempre vou reforçar que análise e terapia são um privilégio). Lembrei da terapeuta que tive logo que voltei de São Paulo para casar com a Inês. Mandei uma mensagem pra ela, que trabalhou por vinte e quatro anos com mulheres grávidas. Ela me acolheu, carinhosamente, de prontidão, e me mandou esse quadrinho aí de cima. X para todas essas mudanças. Não, eu não estava louca. E sabem do que mais? Considerei que bem poderia voltar a vê-la. Recursos! Recursos! Imprescindíveis.

Falei com algumas amigas também. Batata! Choro por nada está no topo da lista das contradições gravídicas. E eu ainda tenho cinco meses pela frente.

 

 

 

 

 

2 respostas para ‘Precisamos conversar

  1. Maira, acho que o lance todo é a expectativa que a gente cria sobre tudo. Isso vale pra gravidez, pro parto, pros primeiros dias depois que o bebê nasce, pra amamentação… acho que vale pro resto da vida com filhos! Temos que nos preparar pra não ser como a gente esperava! E como é difícil, isso… eu posso dizer que tive sorte! To no time da sua mãe e da sua sogra. Amei ficar grávida, porque não tive enjoo (nenhum!), não tive (ou não senti) essas variações de humor… só acho chato o finalzinho porque eu tive que ficar de repouso (e também porque você vai ficando sem posição pra dormir e faz xixi o tempo todo). Então acho que pra mim é fácil falar. Mas o conselho que eu daria, se vocês, mamães, me permitem, é: moderem as expectativas. Planejem ser surpreendidas. Porque as chances são maiores de que vocês se surpreendam. A boa notícia é que tem um monte de surpresa boa também! Juro! Beijos beijos!

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    1. O pior é que eu não tinha expectativa alguma. Fui morrendo de medo. Mas acho que a idade contribui também, não sei. O que eu tenho visto é a enorme quantidade de mulheres que não amaaaaaaram e também não disseram, talvez por culpa. Enfim, cada gravidez é uma gravidez, isso eu já aprendi.

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