De repente, elétrica

Meu pai diz que, quando eu era pequena, falava tanto, que parecia que tinha engolido uma vitrola. Não acho que eu tenha mudado muito. O cenário é esse: hiperativa, várias ações simultâneas, tudo pra ontem. Eu resolvo! Que capacidade de colocar em prática, não é mesmo? Afe! Cansa, tá? Juro que tem horas que eu mesma não me aguento… Até que… há alguns meses, essa versão de mim desapareceu.

Logo no começo da gravidez, eu sentia que o brilho foi minguando. Justamente eu, tão animada, disposta, com senso de humor, ativa que só. Perdi a vontade de socializar. Não só a vontade: era mais forte que tudo. Se eu tinha pensado que seria complicado me adaptar à vida de grávida, sem álcool, sem badalação, eu estava enganada. Fiquei atada à cama. Me arrastando para o que era essencial.

Foi assim durante as doze longas semanas. Mais até. Eu poderia passar horas deitada e não seria suficiente. O dia todo. Mesmo depois que retirei os hormônios, eu continuei baqueada, por causa da virose. Aliás, aqui vai um conselho: não se force na gravidez. Não está se sentindo bem? Tem que ver com o médico. Se ele disser pra ficar em casa, ainda que o trabalho seja muito importante, não hesite. Não há nada mais importante do que uma boa gestação.

Fiquei dez dias em casa. E parecia que eu realmente estava recarregando as baterias. Bem devagar. Uma gripe que custou a passar, com todos os sintomas e sem poder combatê-los com remédios mais eficientes. Eu respeitei os pedidos que se desenhavam ali. Agora agradeço a mim mesma por isso.

Aí, um dia, lá estava eu de novo. Sorriso de volta e o ímpeto de abraçar o mundo, costumeiro de outrora. Dentro do recomendado, era chegado o momento de retomar os exercícios, de colocar uma roupa legal, passar uma maquiagenzinha, cuidar desses detalhes também. O corpo do começo da gravidez ficou inchado, quadrado, e eu não conseguia me sentir bonita, apesar de sempre ouvir falar da beleza da mulher grávida. Ah, as verdades absolutas. A Inês, sim, dizia que eu estava linda. Nossa! Impossível!

Fazia tempo que minhas calças não estavam confortáveis, alguns vestidos também apertavam. Sutiãs, então… Quando, de fato, recuperei o ânimo, lá fomos nós duas comprar umas peças um pouco mais de acordo com a minha forma vigente.

Só que não foi só isso. De repente, fui tomada por uma onda energética. Poderia correr cinco quilômetros, só para gastar um pouco. Poderia, em outras circunstâncias. Não dá para sair pipocando por onde e como eu quiser. Nossa! Sou novamente eu. Eu, versão grávida. Sem atividades de alto impacto, sem tomar uma taça de vinho pra relaxar (ou duas, três, drinks), sem fumar um cigarrinho.  Tenho a enorme incumbência de arrumar novas maneiras de “ser”. Como dar vazão a essa descarga elétrica?

Pilates, hidroginástica, caminhadas ajudam. Porém, nada parece suficiente. É sentar, mesmo no fim do dia, e ser tomada pelos volts extras, que não demoraram a se transformar no efeito colateral que há muito me acompanha: a ansiedade. A gravidez chega a uma nova etapa. E eu, a louca do controle, estranhei as mudanças. Comecei a ter crises de pânico, principalmente à noite. No meio dela, pra ser mais exata.

Ah, o controle. Esse acessório que se tornou inerente a mim. Não sei como é com as outras mulheres. Acho que, no meu caso, esse é um dos pontos mais difíceis: relaxar, assumir que eu realmente não posso fazer tudo, prever tudo, me antever . Oscilo entre momentos de felicidade extrema e conexão com esse mini bebezinho, e terror e pânico, como se estivesse num pesadelo que eu não consigo acordar. Assimilei que é tudo da minha cabeça e que eu mesma devo aprender a lidar com a impotência, a paciência da espera, enquanto meu físico muda completamente.

A gravidez tem sido uma prova. A maior delas. A resposta seria: “deixa as coisas fluírem naturalmente, não há o que você faça para mudar, não depende de você”. Claro! É lindo. Só que no papel. Perfeito no mundo ideal. E que saudade de ser mais idealista, mais romântica, menos racional. Me parece às vezes é que meus pés estão fincados em um lugar mais profundo do que o chão. Onde está o amor incondicional, o espírito maternal, o sonho? Me pergunto e me culpo. Fica tudo suprimido pelo medo e a ansiedade.

Essa evolução é difícil para alguém que passou trinta e três anos tentando controlar o que estivesse ao alcance. Eu sei, já entendi que não está nas minhas mãos, que a paciência é inevitável, irrevogável, essencial. No entanto, ainda estou buscando, aqui dentro, essa nova parte de mim.

 

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