O que as crianças vão pensar?

Há algum tempo, duas mulheres fizeram um casamentão no Copacabana Palace. As fotos saíram nos principais veículos de mídia, entre impressos e internet. Claro que eu pensei que poderíamos ser eu e Inês ali, mas a gente já tinha estabelecido concentrar nossos esforços na mudança de apartamento, em fazer a nossa casa e também no tratamento.

Soube que as duas noivas foram conduzidas ao altar pela filha de uma delas. Uma outra criança, sobrinha, foi chamada para ser pajem ou dama, não me lembro bem, mas a mãe não deixou. Nem participar da cerimônia, nem comparecer ao evento. O que se passa com um pai ou uma mãe para proibir que seu filho testemunhe esse momento?

Sim, sabemos o que se passa. Não reconhecimento do amor entre duas pessoas, preconceito mesmo, essa palavrinha tão recorrente em diferentes âmbitos sociais. Muitas vezes, achar que, por estar ali, perto, a criança vai querer seguir o exemplo “errado”.  Como se isso fosse realmente um fator determinante na sexualidade de uma pessoa. E como se fosse errado.

Eu e Inês estamos juntas há dois anos e meio. Desde o começo, minhas sobrinhas (nossas) – na época, a mais velha com sete e a mais nova com um -, de quem somos bem próximas, conviveram com a gente. Ninguém dizia para a mais velha que éramos um casal. A justificativa era que, se ela perguntasse, responderiam. Ela nunca perguntou. A não ser que a gente escancarasse uma demonstração de afeto, ela não teria como pressupor, não fazia parte do universo dela. Entendia que a Inês estava sempre presente, comigo, nos eventos da família, no entanto, pra ela, éramos “BFFs”, como ela mesma dizia.

Não posso nunca contestar a educação que pais resolvem dar a seus filhos. Hoje, com a cabeça que eu tenho, teria ao menos demonstrado algum descontentamento. Estamos fazendo algo ruim? Algo que deva ser escondido? Na época, eu ainda me sentia culpada, ainda tinha cravada em mim a chaga do “desvio”. Não foi à toa. Demorei muito para ter os meus pais do meu lado. Foi duro, cruel até. Ouvi os maiores impropérios. Sofri, me penitenciei. E isso numa dimensão não muito distante.

Com quase um ano de relacionamento, na iminência de mudar de São Paulo para o Rio, para que a gente morasse juntas, eu contei. As sobrinhas moram em São Paulo. Fomos jantar num japonês e a mais velha começou a especular meus possíveis namorados. Por que isso? Então, eu disse: “A tia Maíra namora a tia Inês”. Ela ficou surpresa.

Imagina conviver com nós duas durante todo tempo e, do nada, ser informada de que a configuração era outra. E por que não disseram antes? Pois é. Será que isso não contribui para que a criança ache que aquilo ali é anormal, já que se tornou um segredo? Um tabu? Repito, não sou pai, nem mãe dela e preciso tolerar a decisão deles. No entanto, se fosse agora, talvez eu tivesse um outro posicionamento, por mais que fosse em vão. Soube que foi falar para a minha mãe, como se tivesse anunciando uma novidade. Todo mundo sabia e ela não.

Hoje, ela encara naturalmente. Adora a Inês. Os pais também nunca fizeram objeções para que ela ficasse com a gente, em momento algum. Outro dia, dividiu com a minha mãe uma preocupação: “como vai ser no dia dos pais da Antonia?”. A explicação me emocionou até. Mamãe tentou mostrar a ela que nem todas as famílias eram iguais e que havia outras alternativas. Foi bonito ouvir isso da minha mãe e saber que ela se esforça para que as netas dela participem da nossa gravidez e sejam próximas a essa prima.

Minha mãe tem sido incrível em relação às meninas. Faz questão de introduzir a Antonia nos assuntos, várias e várias vezes. Mostra que ela é minha filha e da tia Inês. Nas férias, promoveu almoços, levou na nossa casa para ver como estava ficando o quarto. Diferentemente de mim e da Inês e de outras tantas pessoas, não é comum dentro da realidade das meninas. Tem que desenvolver um trabalho ali. A Inês também tem um sobrinho. Desde que engravidamos, há quatro meses, encontrei duas vezes. Nenhuma delas marcada.

Criança é espelho. Cabe aos adultos, sempre aos adultos. Se você ensinar o seu filho a respeitar as diferenças, provavelmente, vai ter uma criança que respeita as diferenças. Outro dia, vivenciei uma cena que me entristeceu. Antes de eu escolher o lugar que ia praticar hidroginástica, experimentei um outro, também perto de casa. Estava no vestiário, trocando de roupa para entrar na piscina, e ouvi, de dentro do banheiro, a voz de uma menina: “Ela é sua filha?”. Sem conseguir precisar a quem ela se dirigia, imaginei que seria uma menina com a cor de pele mais escura e a sua babá. Todas estavam sendo arrumadas por babás de branco. Ninguém respondeu. E ela perguntou de novo.

Quando eu saí da cabine, constatei que a minha suposição procedia. A menina, aparentemente com uns sete, oito anos, incansável, insistia. E, todas as vezes, ninguém dava o que ela queria. O curioso é que ela jamais direcionava a palavra para a garota da idade dela, a quem ela se referia. Apenas para a mulher adulta. Por que isso era tão crucial pra ela? Arrisco dizer: porque ela não convive com meninas mulatas, negras. Vou além: porque não mostraram a ela que são todas iguais. Eu já fui como essa criança. E foi o mundo que me ensinou que eu não podia e nem queria ser assim.

Penso na minha filha. Ela ainda não nasceu e tem três bonecas. Uma delas é negra. Minha filha já tem tudo, absolutamente tudo. Mas logo cedo vai entender que isso é um privilégio de poucos e que ela deve valorizar o que damos. Minha filha tem duas mães. Em muitas ocasiões, vai se sentir diferente por isso. Eu e Inês não queremos que ela sofra. Vamos tentar ao máximo introduzi-la em ambientes em que haja mais pessoas com famílias como a dela e também mais pessoas com raças, classes sociais, sexualidades e tantos aspectos diversos. Sei que não podemos garantir êxito nessa função tão árdua que é formar um ser humano. Vamos fazer o possível.

 

 

 

 

 

2 respostas para ‘O que as crianças vão pensar?

  1. Minha Família é minha vida ! Sempre fiz e continuo fazendo encontros , almoços , jantares , festas e comemorações para todos se unirem e compartilharem suas vidas . Cuido da Família como um ser delicado que precisa de muitos cuidados e ser bastante amado. Ser mulher , profissional, mãe e avó é um processo que tem que ser bem trabalhado com muito carinho . Felicíssima por você e Inês me darem mais uma neta , Antonia e como sempre fiz , preparo o ninho de chegada dela .❤️ Vai trazendo mais união para nossa família . O mundo , as pessoas são bem maiores que nosso pequeno e por isso medíocre do nosso imaginário.Mais uma que vai chegar para enriquecer nossas vidas ! ❤️

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  2. Tão importante explicar pros pequenos que não existe família igual a outra. Que não existe família melhor que a outra. Eu tava pensando nisso esses dias… na escolinha do Antônio tem uma família com duas mães. Há uns meses tiveram a segunda filha, e a família ficou ainda mais linda! Como alguém tem a coragem (e a ousadia) de criticar?! Como alguém consegue enxergar nelas algo diferente de amor? Fico feliz só de ter essa família por perto, ainda que não sejamos próximas. Talvez Antônio cresça naturalmente pensando que é só mais uma família. Talvez um dia ele perceba que elas são minoria e venha me perguntar. E vai ser muito legal poder mostrar pra ele que é só… amor. Que aquela família é um símbolo do mundo melhor que quero construir pra ele: um mundo onde a gente pode amar quem a gente quiser. A família de vocês é isso também. Já era antes da Antonia, mas fica mais forte com ela. Imagina o orgulho danado que ela vai ter de vocês? ♥️

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