E então, minoria

 

yoganos

Essa aí é a minha família. Minha mulher, Inês, nossas cachorras – a branquinha, uma maltês, se chama Mel e a outra, uma yorkshire, é a Maria. Eu peguei a Mel semanas antes de me mudar pra São Paulo. Sempre quis ter um cachorrinho só meu e achei que seria uma hora, já que eu ficaria longe da cidade onde morei a vida toda. Ficamos um tempo só eu e ela. Uns meses depois, resolvi pegar mais uma cachorrinha pra fazer companhia pra gente.

Tenho um amor profundo pelas duas. Acredito que me ajudaram em tantas, tantas coisas. A ser um ser humano melhor, a cuidar, a receber em troca. Eu nunca mais me senti sozinha. Quando a Inês apareceu nas nossas vidas, era pacote completo. Ela levou. Mel e Maria hoje são dela também. As três foram generosas: se amaram mutuamente, nunca disputaram (bem, a Maria com a Mel, sim). De forma rápida e orgânica, formamos o nosso bloco.

Na foto acima, eu sou a da esquerda. Carrego, dentro, de mim, a nossa filha, Antonia. Estamos praticando yoga para gestantes na nossa casa, que fizemos juntas. Nós duas construímos uma relação de respeito, companheirismo, admiração mútua e amor. A Inês é a minha prioridade e eu sou a dela. Foi assim que a gente estabeleceu a base do nosso relacionamento e é assim que fazemos questão de preservar.

Sou a única das minhas amigas da infância e adolescência que se casou com uma mulher – o que não quer dizer que eu não ache que tem muita gente por aí que vive infeliz por medo de se assumir. A única mulher da família também. Não planejei isso. Por muito, muito tempo, achei que eu fosse seguir o script abstrato que se esperava de mim. Só que logo entendi que não gostava do plano padrão. Lê-se: crescer/estudar/namorar/se formar/casar/sair direto da casa dos pais para a “nova residência pós-matrimônio”. Depois, constatei que eu estava longe do apreço pelo padrão em si. Não pela sexualidade, isso demorou. Minha personalidade era diferente. Queria ousar, experimentar, pensar e pisar fora do microcosmo do qual eu fazia parte.

A tal bolha………….

Nasci branca, oriunda da elite dominante e dos seus privilégios sócio-econômicos. Eu sei o que é chegar em qualquer lugar e saber que vou ser bem tratada. Sei o que são portas escancaradas. Sábado passado, uma amiga foi lá em casa, junto com outras pessoas. Estávamos falando sobre racismo e ela contou que não fazia muito, ela tinha ido ao supermercado em Botafogo – bairro nobre da zona sul do Rio. Não me lembro direito do que aconteceu, só que ela demorou um pouco na fila e ouviu de uma mulher atrás: “Deve estar fazendo compras pra patroa”. No caso, a patroa era ela. Da própria casa.

Prontamente, questionei por que ela não fez uma quizumba com a declaração horripilante. “Eu teria feito um escarcéu”, opinei. Agora, volto atrás: será? É fácil ter audácia quando se abusa da segurança. Eu não sei o que é ser preto num país racista como o Brasil. Não sei o que é meter a cara em algum lugar e ser julgada por isso, só por causa da cor da minha pele. Não sei o que é ser preta, ser pobre, passar necessidade, nascer sabendo que, pra mim, o movimento é outro.

Viajei o mundo. Morei fora, estudei em três países, frequentei as melhores escolas, passei no vestibular de todas as faculdades em que me inscrevi. Cresci com a confiança de que podia ser tudo o que eu quisesse. Bem, quase tudo.

De repente, aquela jovem bonita (humildemente) espevitada, atrevida, vencedora se  enquadrou num outro nicho. Surpreendeu, desapontou. De repente, a minha vida pessoal, as minhas escolhas, viraram pauta. Maíra virou desgosto, problema, “preocupação”, é o que diziam. De repente, eu cruzei uma linha imaginária e me tornei margem. E demorou muito, muito, muito mesmo para que eu mesma me absolvesse. Não teve ninguém do meu núcleo direto pra passar a mão na cabeça, nem estender a mão.

Sei o que é enfrentar sozinha tudo ao mesmo tempo. Por isso mesmo, atualmente, a empatia é uma das minhas bandeiras. “Se colocar no lugar do outro”. O preconceito que cala fundo me dói. Mas eu seria uma hipócrita se afirmasse que sempre foi assim. Não! Foram anos e anos rindo do mais fraco, apontando dedo, julgando, sem nem saber por que. É legal ser engraçado às custas dos outros, não é mesmo? Não, não é. Ou não deveria ser.

Nossa sociedade – ou determinada camada social – se acostumou a fazer chacota do diferente. Há algum tempo, principalmente por causa da internet, essa prática infame começou a ser questionada.

As redes têm disso. Expõem o melhor e o pior do outro. O melhor faz a gente sentir que o mundo ainda tem solução. O pior… esse decepciona e destrói. Enquanto, pra mim, é maravilhoso constatar que há uma enorme teia que luta contra o preconceito, que não quer mais presenciar ou ser alvo de ofensas e “brincadeiras” que ferem, existem os que alegam que “o mundo está muito chato”, já que não se pode mais dizer “nada”.

Na verdade, nunca pode. Mas como calar as vozes dominantes, quando o oprimido sequer conseguia suspirar?

Eu mesma demorei a entender isso. As “piadas”, pra mim, eram normais. Quase que saíam naturalmente. E era difícil perder o amigo, porque o amigo, quase sempre, era igual. Tive que ir para o outro lado, tive que me perceber minoria, para me voltar para essas injustiças.

Empatia, se colocar no lugar alheio. Hoje me é intrínseco. Vejo intolerância em todo lugar. Sofro e tenho raiva. Pela minha dor e a dor do outro. Pra aliviar um pouco demorou. Tive que me despir das minhas próprios limitações para poder me botar no colo. Pra entrar no embate legitimamente, sem brigar por fora e lutar comigo mesma por dentro.

Agora eu não tenho só a minha batalha, contra os que acham que o meu amor e a minha família não são legítimos, contra os que fazem mil perguntas sobre nossas escolhas, minhas e da Inês, como se estivessem no direito de julgá-las. Eu tenho muitas, muitas batalhas. E vou encontrando pessoas com os mesmos princípios pelo caminho. Vou deixando pra trás a vida de olhar para o meu próprio umbigo. Me encorajo. Engrandeço. E fortaleço quem quer.

2 respostas para ‘E então, minoria

  1. Nossa, é tão importante ter acesso a blogs feito o de vocês. Há uns dias eu estava lendo um texto seu no qual dizia algo mais ou menos do tipo “eu nunca soube o que é ser vulnerável”, e logo depois de ler… Bingo!!
    É isso que eu também sinto.
    Sou branca, classe média e sempre tive oportunidades na vida.
    Me descobrir lésbica foi muito doloroso, e às vezes (poucas, mas existem) ainda é.
    Eu acho que nunca me identifiquei TANTO com um texto feito me identifico com esse seu .
    Obrigada por contribuições tão importantes .
    Muita luz e amor pra família de vocês ❤️

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