O luto e a luta

Faz mais de dois meses que eu não dou as caras por aqui. Estamos agora com 29 semanas, no segundo trimestre. Foram tantos os momentos em que eu pensei que não fosse conseguir.  Acho a minha maior angústia nesse processo era a de não aguentar. De me sentir tão sufocada com a gravidez e com o longo período que ainda faltava, que entrasse em colapso. Haja análise (privilegio de poucos, coragem para menos gente ainda) pra entender por que. Haja paciência e autoconhecimento para o que, pra mim, foi e ainda é uma provação.

Vou sobrevivendo. Me ocupando com o trabalho, com os exercícios, com a casa, os preparativos para receber a nossa filha. E com a cabeça. Olhando pra dentro.

Vou sobrevivendo.

(pausa)

Pronto, voltei a escrever de novo, agora com sete meses. Escrevi sete meses para não repetir semanas, mas detesto quando alguém pergunta com quantos meses eu estou. Grávida mede por semana, caramba! Um mês é uma eternidade…

Reflito, reflito. Empaquei em um assunto e não desenvolvo. Faço aqui no íntimo, nas rodas de conversas com amigos, em posts isolados nas redes sociais. Confesso que tudo ficou tão intenso, que não parei para sentar e sintetizar o que eu gostaria. E como eu mudei nesse tempo todo! Mudamos, Inês e eu. Como pessoas, distintamente, e como casal.

Foi ficando cada vez mais claro pra mim que eu me imbuí, a vida inteira, de valores que não eram meus. Preconceitos que não eram meus. Hábitos, tradições, laços que não eram meus. Me coloquei de fora, como observadora de tantos universos, passados, inclusive. E entendi que eu precisava me libertar desses paradigmas a que me foram atribuídos. Fim do produto do meio. Fui tomando fôlego para gritar chega. Chega. Chega! Chegaaaaa!

Luto. Por mais que eu não me identificasse, definitivamente, que eu conseguisse assumir o estranhamento, o incomodo com ambientes já frequentados, núcleos a que pertenci, era como negar partes de mim. A escola opressora, que formava jovens competitivos e socialmente iguais, o clube da elite financeira, com gente obtusa, preconceituosa, grupos de amizade sem absolutamente nada a ver comigo, parentes sem empatia alguma.

Doeu. Era eu, dizendo adeus. Uma vida brotando aqui dentro, crescendo, me dando diferentes significados, e várias Maíras indo embora. Luto.

E tudo se intensificou ainda mais com o período nebuloso de eleição. Era como se cada um usasse um carimbo, uma camiseta dizendo: “eu me importo/eu não me importo com o seu sofrimento e os seus problemas”. E os de tanta gente, aliás! Eu só pensava na nossa filha. No que ela iria encontrar quando nascesse.

De repente, intolerância e preconceito foram legitimados. E tudo bem que você não gostasse de negros, se fosse machista, se achasse que família era homem e mulher. Ou que não concordasse com nada disso, aparentemente, porém, estava dando o seu voto para quem fazia. Ou seja, dava no mesmo.

Eu e Inês tínhamos uma união estável e ficamos com medo de não conseguirmos casar no civil no próximo ano. Pior: de ter alguma objeção na hora do registro da Antonia. Tanta luta por direitos básicos jogada fora?

Como abraçar, sentar numa mesa com alguém que está assinando o meu atestado de dias difíceis? (E o de tanta gente…) É fácil condenar a minha postura. “Nossa, as eleições mexeram muito com você”, “Mas você não prega a tolerância? Por que está sendo intolerante?”. Ficou claro, como o céu carioca num dia de verão: preconceito disfarçado de opinião continua sendo preconceito. Dos brabos! E eu sou absolutamente intolerante à intolerância. Quem estava comigo nessa ia seguir.

Doeu. Teve luto. Teve também muita gente aparecendo. Nova até. Outras mais presentes. Mãos se estendendo, se entrelaçando. Eu não estava sozinha. Pelo contrário: eu pertencia como nunca. Uma rede ao lado e em volta. Uma revolução dentro e depois fora. Uma filha crescendo. Uma rotina completamente mudada. Uma casa sendo reparada é transformada. Um casal se reinventando. Uma família nascendo. Forte. Fincando suas raízes. E eu, sendo quem eu gostaria de ser. Ufa!

2 respostas para ‘O luto e a luta

  1. Nossa, Maíra, como é bom você aqui novamente!

    Acho que , às vezes, tudo o que precisamos é de uma pausa.. e que bom que essa pausa foi um período de se desfazer de coisas, pessoas.. que não fazem mais sentido na tua vida. Eu imagino que doa bastante sim, é estranho a gente se desfazer daquilo que, até pouco tempo, achávamos que nos pertenciam.

    E que incrível é ler aqui que você está se REFAZENDO, se remendando, conhecendo uma nova versão sua.

    Antônia vai ter muitos exemplos de mulheres fortes ao redor dela.

    A internet permite coisas incríveis, como o que está acontecendo agora: eu estou longe de você e de sua família, não as conheço pessoalmente, mas consigo sentir empatia e torço muito por vocês.

    Assim como eu, imagino que há muitas outras que te acompanham e mandam as MELHORES energias pra você, Inês e Antônia.

    Brilhem daí que a gente observa daqui!

    Muita serenidade! (se é que é possível nessas últimas semanas de espera..)

    Um abraço cheio de AMOR!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s