O lugar no mundo

antonia_182
A Inês demora a se colocar. Quando o faz, é pontual, delicada, porém assertiva. Em cheio, como nesse texto que me mandou hoje. A mãe da minha filha tem uma enorme capacidade de amar. E uma lealdade que eu nunca tinha visto, nem parecida. É sensível e nem imagina a força que tem. Mudou a minha vida. E eu só quero estar colada com ela.
 
O texto, pois:
 
Passei muito tempo da minha vida tentando me encaixar nos papéis ou lugares que a sociedade me apresentava. Seguir o script, dançar conforme a música e não decepcionar.
Nunca fui feliz.
Como sei que não fui? Porque hoje sou e muito.
Sou feliz não por ter encontrado o meu lugar dentro dos propostos pela sociedade. Sou feliz por ter encontrado o amor da minha vida e, principalmente, por, ao lado dela, ter ME ENCONTRADO.
Juntas construímos um lar e uma família. Nessa família há duas mães e uma filha.
Uma mãe gestante, linda, forte e admirável que é a Maíra. E uma mãe não gestante, que sou eu. Mais uma vez, me deparo com a dificuldade de encontrar meu lugar. Não porque eu não me sinta bem, porque sou muito mãe e nunca estive tão feliz. Mas porque o mundo à volta nem sempre reconhece meu lugar. Pessoas e lugares próximos podem ser cruéis. Pequenas atividades às vezes demandam uma luta.
Como dói preencher formulários onde o espaço destinado ao meu nome é o “nome do pai” ou “do cônjuge”. Livros e mais livros com parágrafos destinados ao papai ajudando a mamãe. Não encontrei NENHUM sobre famílias.
Na loja de móveis de bebê, comprando estantes para a nossa filha, perguntam para a Maíra se eu era a “arquiteta da mamãe”.
Na maternidade só existe roupa especial onde se lê: “eu sou o papai”.
E o pior é quando encontram as duas e ousam perguntar: “Quem é a mãe?”.
Questionam a ausência da minha barriga. Dói. Dói e muito.
Mas em nenhum segundo eu mesma questiono minha maternidade. O amor pela minha filha. E o meu lugar de MÃE DA ANTONIA. Sim, sou uma das mães da Antonia. Ela tem duas.
Depois de quarenta anos, encontrei meu lugar no mundo e o mundo insiste em dizer que esse lugar não existe.
Com a Maíra ao meu lado, de mãos dadas, como sempre, me sinto forte o suficiente para abrir caminho nessa mata de preconceito e ignorância, mesmo que o capim corte a minha pele e as pedras machuquem os meus pés. É o preço do pioneirismo.
Um caminho por onde vão passar muitas outras como eu. De mãos dadas com seus filhos.
Não há um lugar para mim no mundo.
Mas construí uma família linda e forte e vou construir esse lugar.
O meu lugar é ao lado da minha mulher e da minha filha.
Sou mãe. Mãe da Antonia.

3 respostas para ‘O lugar no mundo

  1. Muito emocionante seu depoimento, Inês. Admiro a iniciativa de vocês em transformar sua experiência num incentivo a casais que , ao lerem os posts tão detalhados, sintam-se encorajados a construir suas famílias com todo o cuidado e amor. Sabemos que, no mundo, o inferno são os outros, portanto , não se incomodar com o julgamento desses outros é um ótimo passo…Parabéns!!!! Boa hora pra vocês!!!!

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