Como mutantes

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A gente deu a mão e foi.

Foi superando a distância
Mudando de cidade
Montando uma casa juntas
Depois outra.

A gente deu a mão e foi.

Foi crescendo, todos os dias
Enfrentando percalços, preconceitos (os nossos também)
Realizando conquistas
Difícil, mas não impossível, desde que estejamos juntas.

A gente deu a mão e foi.

Foi e fez uma filha
Uma família!
Inês, Maíra, Mel, Maria e agora Antonia.
Nada tradicional, como nós.
Esforço e orgulho!

A gente deu a mão
Foi
Só solta pra deixar entrar essa menininha, símbolo maior do nosso amor
E que amor!
De papel passado e o que mais temos direito.

========

Eu não sou chegada a tradição. Sou ausência certa em chás de bebê como manda o figurino social : mesinha decorada com tema, bolo com o nome do bebê, brindes. E a barriga pintada? Ainda bem que isso é mais raro hoje em dia. Nada contra quem gosta. Só não sou eu e, felizmente, não é a Inês. Mas a Inês queria promover algo. E, com o tempo, eu entendi que, pra gente, não seria só uma festinha de boas vindas. Era a hora de comemorar o nosso amor e a nossa filha com pessoas queridas.

Esse foi o texto que fizemos para convidar nossos escolhidos para a “Feijoada da Antonia”, como batizamos o evento, já que “chá” me faz tremer.  Foi uma festa animada, no ateliê lindíssimo do pai da Inês, um dos artistas plásticos que eu mais admiro. Arte, samba ao vivo, muita bebida, comida e uma atmosfera que, todos disseram, era especial. Bem a nossa cara!

Quanto mais planejávamos, mais Inês e eu percebíamos que queríamos mesmo celebrar. E fincar os pés, sabem? Uma forma também de mostrar o orgulho pela nossa família. O nosso casamento. Meus bens mais preciosos.

Nosso povo fez questão de ir. Que alegria! Lá pelas tantas, ela puxou um discurso. Normalmente, sou eu que falo. E falo. E falo. Ela pediu a palavra, ela falou. De amor, do nosso casamento, da nossa filha, da importância daquela gente ali. Teve uma das nossas músicas. Nos emocionamos, radiantes, sob os olhares da rede que formamos para nos sentirmos fortes e acolhidas. Todo mundo ali sabia quem nós éramos.

É assim nos meios que frequentamos. No meu trabalho, no trabalho da Inês, nos grupos de amigos, na academia dela, no meu pilates, no prédio, na loja que compramos roupas, no salão de beleza, nos médicos, na petshop, em tantos ambientes. Todo mundo que conhece a gente sabe que somos Maíra e Inês: um grande encontro. Casadas. Mães da Antonia.

Escancarar o nosso relacionamento e a nossa gravidez, defender a constituição da nossa família, do jeito que ela é, foi uma maneira da gente se proteger. Fomos tecendo a nossa teia do bem.  Tirando uns e agarrando outros, mesmo que isso significasse abrir mão da convivência com gente da própria família. Esses podem ser bem cruéis, aliás. Pelo menos no nosso caso… Por vezes nos fizeram lembrar que os problemas da nossa gestação ultrapassam as funções básicas – e nada fáceis – de me manter saudável e manter a nossa filha saudável. De driblar as mudanças do corpo, os hormônios, preparar a casa, equilibrar o casamento. Se fosse só isso…

Estamos constantemente batalhando para legitimar nosso lugar. Lutando por aceitação – não para sermos toleradas, e sim respeitadas -, por paz de espírito, num momento tão delicado. Processo lento, gradual e, somos conscientes: falta muito. Fomos aprendendo a ser mais seguras, firmes nos julgamentos e nas perguntas. Ao sinal de preconceito, um belo pé no peito. No entanto, ainda existe muito desconforto, principalmente quando deixamos as dependências do nosso universo seguro para encarar o vasto mundo de intolerância e ignorância. Quando isso acontece, não somos só nós. Somos mutantes.

Somos mutantes ao andarmos na rua, de mãos dadas, nos beijando, uma mulher grávida com outra mulher. Somos mutantes no aniversário de uma amiga de escola (tradicional), onde não há um único casal gay, além da gente. Somos mutantes na hidroginástica, em meio à geração equivocada que se sente no direito que questionar a nossa decisão. Somos mutantes ao preencher o formulário da médica, em que só há opção para o nome da mãe e o nome do pai.

Não teve um plano de parto que recebemos – da obstetra, da doula – em que a primeira linha para marcar não fosse: “quero a presença do meu marido e de uma doula”. Na maternidade, os dados da Inês ficaram no nome do pai. E as famílias de duas mães? E as mulheres solteiras? E as que foram abandonadas ou decidiram seguir em produções independentes? Só há espaço para uma disposição? Seguimos mutantes, ainda que nos digam: “nossa, desculpa! Não tinha pensado nisso!”. É…

Somos mutantes nos olhares e nas atividades corriqueiras. Somos mutantes toda vez que me questionam se eu quero parto normal, se já decidi o lugar do nascimento da minha filha. Isso, com a minha mulher do lado. Com a mãe da minha filha do lado. Somos mutantes. Eu nunca sei como vamos ser recebidas em um novo ambiente.

“Quem é a mãe?

De quem é o óvulo?

E o pai?

Mas você não acha estranho?”

Pergunta de gente próxima. E de gente que não tem a menor, mas a menooooor intimidade. Há a ignorância, óbvio. Com uma boa dose de intrusão. E há o preconceito e a crueldade, puros, simples e podres.

“Olha, não é preconceito, mas eu não concordo”.

Oi? Não concorda?

Meu Deus, como eu demorei pra conseguir ter uma resposta em cheio. Me imbuir dela, na verdade. Eu mesma acreditar que não estávamos fazendo nada de errado e não éramos obrigadas a levar tapas na cara gratuitos de intolerância travestida de opinião. Ah, sim, porque o argumento costuma ser esse: “mas eu tenho o direito de expressar a minha opinião”. Não, não tem.

Faltam menos de dois meses para a nossa filha nascer. Estou certa de que ainda temos batalhas. Guerra sem fim. Porém, nunca estive tão firme das minhas escolhas, do meu amor, de quem eu sou e de quem eu quero ser. Eu sou a Maíra, casada com a Inês, com quem eu vivo um relacionamento de amor, de admiração, de respeito, de uma parceria que eu desconhecia, embora tivesse desejado a vida inteira. Com quem eu constituo a família que eu almejo, com valores que eu admiro e persigo.

Quem não reconhece a nossa família do jeito que ela merece não pode nos cercar. Quem não reconhece a maternidade da mãe da minha filha não reconhece a mim também.

Somos mutantes. E não é que eu me dei conta de que eu sempre achei os mutantes mais interessantes?

2 respostas para ‘Como mutantes

  1. Maira , acabei encontrando seu lh citando está linda história de amor , de superação , de encontro de almas , de lealdade ! Fiquei emocionada e muito feliz por ver que vc finalmente reencontrou sua alma gêmea e juntas estão construindo o legado de vcs nesta vida . Que Deus as ilumine e as proteja . Vivam intensamente a vida porque tudo já deu certo . Em breve sua Maria chega para alegrar ainda mais está família Abençoada . Um beijo forte daqui de SP . Benati

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