A mulher grávida

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“Aproveita, você vai sentir saudade da barriga”.

Foram inúmeras as vezes eu ouvi esse “conselho” das que já tinham atravessado a linha para maternidade, enquanto eu esperava minha filha. Amigas, conhecidas, mesmo quem eu nunca tinha visto na vida, naquelas conversas fora de banheiro, tentavam me alertar, sobretudo quando eu tecia uma reclamação costumeira.

Saudade da barriga… Mas saudade do quê, especificamente? De ter um amado desconhecido crescendo dentro de si? Ou de ser uma mulher grávida, dona de um status social privilegiado e momentâneo? Sim, porque a mulher grávida deixa o rol das mulheres comuns, para ocupar um lugar diferente na cadeia social. Eu, particularmente, não consigo compreender essa glamourização da gravidez que muita gente tem.

As justificativas são variadas. Houve quem citasse a satisfação em ser paparicada. Também as que se achavam lindas – em tempo, eu me achava bonita grávida, desfilava com a barriga por tudo o que era lugar, mas me curtia mais sem ela -, e as que se lembravam, quase melancólicas, do tempo em que tinham lugar especial nas filas e em tantos lugares.

Ser preferencial. Não só no supermercado, no banco, no ônibus, na família na vida… Há algo de subjetivo nessa palavra, nesse contexto.  A impressão que eu tenho é que essa é a grande chance para que muitas mulheres tenham tratamento privilegiado, para que sejam mimadas, bem tratadas, que estejam em destaque nesse mundo machista. Não à toa é comum elas não saberem lidar quando os holofotes são desviados para o bebê após o nascimento.

A mulher grávida está num outro patamar. Para uns, ela é sagrada até, agente do milagre da vida. Grávida não carrega peso, não faz esforço. Quem ousa tirar a guloseima de uma grávida? “É desejo, tem que atender!”. A grávida é felicitada, congratulada, aplaudida, protegida. Portadora de um “glow”que a torna luminosa aos olhos alheios. Enquanto te acham linda, você está lá, revirando o seu guarda-roupa para encontrar algo que sirva ou tendo que gastar dinheiro, como se não bastasse o enxoval do bebê, para comprar um vestido GG.

Pois é, temos aí um outro lado. Os paparicos andam junto com os efeitos colaterais e as obrigações. Fora os oitocentos pitacos, opiniões, críticas e conselhos (“conselhos”, tá bom!) gratuitos, que você não sabe como reagir, a mulher grávida tem que ser lânguida, plena. Tem que achar que está vivendo o melhor momento da sua vida, a sua maior realização. Portadora de um imã que faz com que oito entre dez pessoas tenham o ímpeto irresistível de meter a mão na barriga (por quê, meu Deus? Por quê?), ela é socialmente obrigada a amar estar grávida.

Eu me lembro de uma vez que disse para uma menina da minha hidroginástica, grávida também, que às vezes tinha vontade de desacoplar a barriga por vinte minutos. Nada mais do que isso. Só um tempinho pra dar uma pirueta, uma corridinha, tomar uma cerveja gelada e respirar fundo. Voltar, momentaneamente, ao estado de normalidade, ao qual me acostumei a vida toda. Ser livre, ainda que por poucos minutos. Pois ela arregalou os olhos. Me olhou como se eu estivesse proferindo uma heresia.

E era assim, principalmente com as ex-grávidas de outras gerações. Quanto mais distantes cronologicamente, mais frequente a sentença: “eu não senti nada!”. Gente, impossível! Chego a acreditar que, de fato, o corpo se encarrega de dar um sumiço nas memórias ruins. Acredito que, para elas, o processo era ainda mais solitário – ainda é, pelo que eu vejo. Gravidez era coisa de mulher! E só! A maior parte dos homens , seus companheiros, não tomava conhecimento do que estava se passando com elas, o que se alongava no nascimento do bebê, no puerpério e nos primeiros meses de vida.

Agora, vai contar para as que nunca tiveram filhos os efeitos colaterais que estão acontecendo com o seu corpo durante esses meses… As que desejam engravidar um dia quase desistem. Os seios mudam, a vagina também. O corpo vai ficando pesado, inchado, com dor. Dores que eu nunca tive, nunca pensei que sentiria. Pressão baixa, desmaios iminentes, hormônios que controlavam cada sentimento, exacerbavam as reações. Privações… Noites pessimamente dormidas. Por que ninguém conta, minha gente?

A impressão que eu tenho é que vai virando um tabu, sabem? A mulher que reclama é menos mulher, menos realizadora do papel ao qual foi designada antes mesmo de nascer, só por ser mulher.Olha que eu não engordei muito! E, preciso assumir, tive toda a estrutura para levar uma gestação da melhor forma possível. Tem muita mulher que experimenta efeitos bem mais graves, que ameaçam comprometer sua saúde e do bebê.

A mulher grávida costuma esperar passar o primeiro trimestre para contar sobre a gestação. Pra mim, as primeiras semanas foram as piores, disparado. E não vou dizer que foram 12, não. Eu sofri muito até 16 semanas… Com boas doses de hormônio extra e um processo não tradicional de família, tive de tudo: dor de cabeça, cansaço absurdo, um enjoo i-n-d-e-s-c-r-i-t-í-v-e-l. Uma mini depressão, com direito a questionamentos, medos e ansiedade. Pela frente, longos e intermináveis meses. Será que eu ia aguentar?

Meu primeiro trimestre foi intenso, pesado e… silencioso. A gente guarda a informação mais importante das nossas vidas apenas para os íntimos. Fica amargando os sintomas sem poder contar com a compaixão alheia. Felizmente, no trabalho, eu tive uma chefe bem compreensiva. Só que era difícil. Não faltou gente pra dizer que eu estava abatida, mal humorada… E eu estava mesmo! E estava outras milhares de coisas.

Aí vem a fase do anúncio! O nosso, imaginem, foi um reboliço. Uma avalanche! Como eu já contei aqui, com os parabéns, vieram as perguntas e comentários para os quais logo descobri que não estava preparada. Com a gestação pública, ainda que não notória por enquanto, você é “promovida” a um novo status: o de mulher grávida. No meu caso, uma mulher grávida casada com outra mulher, também mãe, só que não gestante.

Se eu me esforçava para levar adiante a gestação aqui dentro, Inês, minha mulher, se desdobrava para enfrentar o não reconhecimento da maternidade dela, justamente pela falta da barriga física. Como me sentir plena, realizada, radiante, se nem todo mundo reconhecia a nossa dupla maternidade? Foi assim durante os nove meses. Nove meses de: “Você vai ter parto normal?”, “Onde você vai ter?”, “Parabéns, mamãe”. Tudo direcionado a mim, embora minha mulher estivesse ali, ao meu lado.

Claro que há elementos positivos. O carinho das pessoas, as gratas surpresas, de gente que não é tão próxima e acaba se tornando. Os presentes, as palavras de apoio. Uma sororidade entre as mulheres que já passaram por isso (rola o contrário também: tipo aquelas mal-humoradas que te repreendem: “querida, não faz drama! Pode carregar esse peso, eu também já fiquei grávida”. Juro, juro que passei por isso com estranhas e, infelizmente, pessoas da família.)

Mas nunca quis e nunca precisei ter destaque por isso. Sempre busquei reconhecimento pela minha personalidade, pelo meu trabalho, meu caráter, meu senso de humor – que diminuiu bastante, principalmente nos primeiros meses, reconheço.

Comecei a escrever esse texto mais pro fim da gestação e estou atualizando agora, com Antonia com quase dois meses. Na primeira vez que eu fui ao supermercado, depois de parir,  quase segui, naturalmente, para o caixa preferencial, até que percebi que não tinha mais direito. Pronto, deixei de ser preferencial. Era novamente na fila do pão e de qualquer outra coisa. E daí? 

Hoje tenho um outro olhar para mulheres grávidas. Por trás de um barrigão, pode, sim, ter alguém que precisa de um afago, que quer desabafar e não consegue, por toda essa imposição social. Posso afirmar, com toda a certeza, que, depois que a minha filha saiu daqui, não teve um dia que a profecia tenha se realizado. Continuo tentando entender essa glamourização da gravidez. Saudade da barriga? Nem pensar! O bebê aqui fora é bem melhor! 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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