Mas não ia vir antes?

Esqueça as profecias. Se você quer ter um parto normal, não há como prever quando exatamente e como seu bebê irá nascer. O conselho que eu dou é: se informe, se informe muito sobre os processos, mesmo se a vontade a sua vontade é de ter uma cesariana.

Há muitas mulheres com medo de sentir dor, ou que não aguentam de tanta ansiedade e por isso preferem até marcar a cirurgia. Ok, ninguém tem nada com isso. Só vou me meter um pouquinho: opte com embasamento.

Conhecer os processos de um parto torna a mulher empoderada para tomar suas decisões, num país em que se faz cesariana sem o menor motivo. “Não deu”. E pronto: abre-se a barriga. Não adianta! O parto é da gestante. Todo mundo pode opinar, mas, no fim, o desejo que tem que prevalecer é o dela. A não ser que haja algum contratempo. Aí, a palavra final é do obstetra.

Não deixe de ler o plano de parto e de discutir cada item com seu ou sua parceira, o médico ou médica e quem mais for fazer parte desse momento. A gente teve uma doula, então, as primeiras conversas foram com ela.

Inês e eu falamos exaustivamente sobre o parto, entre nós e com as profissionais que nos acompanhavam. Minha constatação veio logo: eu pouco sabia sobre o assunto. A verdade é que muita gente desconhece, mesmo tendo passado por um.

Na época, a minha única certeza era de que eu queria um parto normal. E tome ignorância da minha parte. Parto normal é o mesmo que natural? Eu achava que sim! Contração doi? Nem sempre. Em que momento a gente deve ligar para a obstetra? Bom combinar com ela. Anestesia, sim ou nao? Depende. De qual tipo? Depende também. Ir logo para a maternidade ou ficar em casa até determinado ponto? Analgesia? Abrir acesso? Ajuda para tirar o bebê? Muitas questões, que a gente foi respondendo aos poucos, mesmo sabendo que nada era garantido no “vamos ver”.

Inês e eu jurávamos que a Antonia nasceria antes. Vai entender… Só não podia ser no aniversário da Inês, 31 de janeiro, exatamente quando a gestação completaria as 38 semanas. A gente sabia até a data: dois de fevereiro, dia de Iemanjá. Como? Fácil! Eu ia fazer tanto exercício um dia antes, que estimularia as contrações. Moleza! Ahaaaaam!

O aniversário da Inês chegou com ela trabalhando aos montes. A essa altura, ela saía de casa com o coração na mão, achando que poderia ser a qualquer momento. E eu ficava super apreensiva, porque a sede da empresa onde ela fica está a pelo menos cinquenta minutos da nossa casa.

Lembro um dia em que eu fiz exercício, sentei para comer um quibe no shopping onde fica a academia e tive um mini ataque de ansiedade. “E se acontecesse alguma coisa e ela ainda estivesse longe?”. Era como se eu estivesse sozinha no escuro. Me bateu desespero mesmo. Acho que era ansiedade com medo do que poderia acontecer, junto com uma falta de paciência que ia se intensificando, junto com cólicas, contrações, dor no estômago e efeitos colaterais que eu já sentia e foram se agravando.

Ia acabar. Só que ainda não sabíamos como e quando. Pródromos, caros leitores e leitoras! Não sabe o que são? Eu também não sabia, até passar por eles. São falsas contrações, que fazem você pensar que o momento chegou. E nada!

Houve noites que a gente teve certeza que as contrações iam evoluir. Numa delas ligamos para a nossa obstetra – uma hora dessas quero falar melhor sobre ela. Alarme falso. Foram vários. Eu nunca tinha passado por nada disso, nem a Inês e esse desconhecido não ajudava.

A trigésima oitava semana se foi. A barriga maior ainda. Já o útero não dava sinais de que estava pronto. Quantos palpites! “Sobe e desce escada”, “come pimenta”, “vai demorar, a barriga está alta”. E as mensagens e ligações quase cobrando a aparição da Antonia? “E aí? Não vai nascer, não?”. “A menina está preguiçosa?”. Para não ficar mais ansiosa – sim, porque o povo não ajuda -, eu simplesmente parei de responder.

Antonia não nasceu quando a gente queria. Nem perto! Nesse clima de apreensão e, ao mesmo tempo, curtindo que estava acabando, a mocinha ia ficando enorme, enquanto o corpo mostrava que talvez não estivesse preparado. O útero continuava grosso e ela, embora há muito de cabeça pra baixo, não encaixava.

Trinta e nove semanas. Pra distrair, eu fazia um álbum pra ela, com fotos da gravidez, legendas. Inês e eu tínhamos programas nossos, vou me lembrar com carinho deles. Começamos até a montar juntas um quebra-cabeças de mil peças. A Monalisa. Difícil que só!

Trinta e nove e meia. E aí, filha? Quando você vem? Na noite do dia onze, em casa, pedimos um hamburgão pra cada uma. Eu disse, brincando: “Antonia, agora é você ou esse hambúrguer, os dois não cabem”. Comemos e seguimos encaixando as pecinhas. Até que, à meia noite e quarenta do dia doze de fevereiro, timidamente, a bolsa estourou.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s