Boa hora, não. Hoooooooras!

Nas várias formas que eu tinha imaginado que viria a mensagem de que a Antonia estava chegando, o que realmente aconteceu não estava incluso. Era mais um dia em que eu estava exausta de carregar aquela barriga enorme, no calorão de fevereiro no Rio. As 39 semanas indo embora e eu tentando arrumar alguma distração. Fui à academia à tarde e encontrei uma amiga depois pra tomar um sorvete. Ela tem dois filhos e duas cesarianas sem trabalho de parto. Quando pousou os olhos em mim, sem nem me cumprimentar, afirmou, cheia de segurança: “não está com a menor cara de que vai nascer. Sua barriga ainda está muito alta”. Ô, palpite!

Inês chegou do trabalho a tempo de nos encontrar. A essa altura, como contei, ela morria de medo de alguma coisa acontecer e ela estar longe. A gente ia dar um mergulho na praia, à noite mesmo, e desistiu. Fomos pra casa.

Eu estava intrigada com um quebra-cabeças de Monalisa que tínhamos comprado, justamente pra passar o tempo. O negócio era péssimo, várias peças iguais, mas eu não conseguia parar! Tinha algo interessante na televisão também, só que nem eu, nem a Inês nos lembramos do que era. E Antonia nervosa aqui dentro. Pedimos um hambúrguer daqueles artesanais, o meu com duas carnes naquela vez, tamanha era a fome. Era tão grande, que eu olhei pra barriga e ameacei: “Antonia, é você ou esse hambúrguer aí dentro”. Ela levou a sério!

Meia noite e quarenta e cinco. Notei que um líquido saía de mim. Não era xixi, era água mesmo. A bolsa? Será? Eu tinha a ideia de que, quando a bolsa rompesse, ia ser um aguaceiro, tipo filme.  Liguei pra nossa obstetra, que a essa altura dormia o sono leve do médico que anda o tempo todo alerta. Ela falou para esperar algum sinal de contração. Mandamos mensagem para a doula, que também perguntou sobre contrações.

Eu me recordo de ter ficado calma, mesmo com o volume se intensificando. Mandei mensagem para a médica informando do aumento da água, já crendo que ela não acordaria. Dormimos. Isso aí, dormimos! Foi a última vez que eu dormi seis horas seguidas… Quando acordei, tirando a água, nada tinha acontecido. Só que sete horas tinham se passado desde que a bolsa estourou. Nossa obstetra nos recomendou ir até a maternidade, nos internar e esperar que ela chegasse para ver como estava o coração da Antonia.

Ela ia nascer!!!

Exame ótimo, coração forte o da minha filha… Mais horas se passaram. Necas de contração. Só que, com a bolsa rota, o bebê estava desprotegido. Optamos pelo antibiótico… e a espera, já na sala de parto. É, Maíra! E você achou que fosse contrair em casa, fazer exercícios guiados pela doula, segurar a mão da Inês, passar mais tempo possível no conforto do lar até ir para o hospital… lá estávamos nós, sem script.

A sala de parto humanizado não se parece em nada com o centro cirúrgico. Tem cara de quarto, com uma banheira no meio. Não demorou muito para ouvirmos os urros desesperados de uma grávida, que adentrava a sala ao lado com o bebê praticamente coroando. Eu nunca tinha ouvido alguém gritar de dor assim na vida. Que desespero! Era isso que eu ia sentir?

Enquanto a gente passava o tempo escutando a playlist que eu e Inês preparamos para o parto e abríamos a nossa intimidade para a Valeria Seidl, nossa obstetra – a melhor escolha que fizemos para o pré-natal e nascimento da Antonia -, a Flavia, nossa doula e o Jean, anestesista, a postos caso fosse necessário.

Teve de tudo: cantoria, histórias de cada um, parecia uma tarde entre amigos. Até vir uma catarse daquelas! Em determinado momento, eu caí no choro. Me dei conta de que estava acabando. Nove meses me segurando pra não perder o prumo, pra levar adiante, com saúde, e tantas limitações. Um corpo estranho crescia em mim e eu não idealizava nem um pouco essa condição.

Agora chega! Eu tinha conseguido!!! E não teria feito sem a paciência e o companheirismo da minha mulher, a outra mãe da minha filha. As lágrimas caíam e eu tirava um peso enorme de mim. Via o filme inteiro da gravidez e percebia que eu não era mais a mesma, nem a Inês, muito menos nós duas juntas. Estávamos prestes a conhecer a nossa filha e eu estava tão emocionada, que abraçava a Inês, como se ninguém mais estivesse ali.

Ah, teve exercício pra caramba também, pra ver se o útero dava uma animada. Só não teve contração. O tempo corria, saía mais água e o meu corpo nem tchum. Chegada a hora de tomar uma decisão. Nós optamos por induzir, ou seja, dar um hormônio na veia para estimular contratações.

Dá-lhe ocitocina! Dá-lhe espera. Nossa doula tinha levado uma bola de pilates e outros acessórios pra fazer spinning babies, exercícios que ajudam na dilatação e no posicionamento do bebê. Eu fiz ao longo da gravidez e a Antonia estava na posição que tinha que estar: de cabeça pra baixo. As batidas do coração dela também não se abalavam. A essa altura, não trajava parte de baixo nenhuma, só um top. Parecia que nada era suficiente pra engrenar.

Aumentaram a dose de ocitocina. E, enfim, as contrações vieram. No começo, tímidas. E eu confesso que não senti nem uma dorzinha. Aos poucos, elas começaram a se ritmar. Nenhuma dor. Pouquíssima dilatação. Era toda uma equipe esperando alguma resposta, sem que ela viesse. Por vezes, olhei no olho da nossa obstetra, em quem eu e Inês confiamos absolutamente, e pedi que ela não me abandonasse. Como a gente fica vulnerável! “Eu não vou a lugar nenhum”. Não foi mesmo.

A Valéria realmente fechou com a gente de uma forma que eu não tenho nem palavras para descrever. A essa altura, muito médico já tinha acabado a brincadeira e metido a faca pra tirar o bebê e ir logo pra casa. Ela não. Ela nos deu confiança, foi companheira, ficou com a gente com o maior companheirismo e paciência do mundo. Se o parto foi especial, devemos muito a ela por isso.

Só que já era chegada a noite e não tínhamos o progresso desejado. A Antonia permanecia com o coração monitorado. As batidas nem titubeavam. Ela também era teimosa. Em determinado momento, eu recebi a sentença: se eu não entrasse em trabalho de parto nas próximas horas, não ia ter jeito, seria uma cesariana.

Mais choro. Mais e mais exercícios. Mais cumplicidade com a Inês, mais insistência da minha parte, mais companheirismo da Valéria e de toda a equipe. Que profissional e pessoa maravilhosa!

As músicas iam tocando e todo mundo cantava ou contava alguma história sobre a própria vida. Não avisamos pra muita gente que tínhamos ido pra maternidade, mas como os amigos mais chegados sabiam que estava perto, começaram a me escrever. Foi tudo tão intenso pra gente, que eu pouco olhei o celular. Inês também. A gente mal comeu, pra falar a verdade.

Quando as contrações ficaram um pouco mais fortes, eu sentei de cócoras e comecei a fazer força.

 Foooooooooorçaaaaaa!  

Eu não consigo precisar a que horas o negócio resolveu evoluir. O que eu sei é que, lá pelas tantas, as contrações foram aumentando, ficando ritmadas, minha barriga baixou e a dilatação aumentou. Eu seguia sem sentir dor. Juro, era até um prazerzinho… Foram horas assim. Já estávamos a doze horas ali.

Quando nem eu mesma acreditava e já estava aceitando o fato de que íamos ter que fazer uma cesariana, o prazer virou dor. Muita, muita, muita, muita dor. Meu Deus, era essa dor que todo mundo falava? Eu deitei naquela maca, com as perdas abertas, e fazia a maior força possível a cada contração. De repente a equipe inteira estava ali, segurando a minha mão. Ou meu pé, alguma parte do meu corpo. Valéria dizia que já era possível ver a cabeça da Antonia, que não ia demorar pra ela sair. No entanto, cada vez que a dor absurda da contração chegava, era só dor. A Antonia não saía.

De verdade, não há nada parecido com a dor que eu sentia. Era como se eu estivesse me rasgando por dentro. A impressão que eu tenho é que a minha filha entalou. Eu tinha entrado no estágio expulsivo, não tinha como voltar atrás. A Inês me disse depois que ela levou a Valéria para um canto e pediu que ela tirasse eu e a Antonia bem dali. Como se fosse preciso pedir.

“Vem Antonia! Vem filha!”. Eu clamava, em cada contração, enquanto fazia o que eu acreditava ser um empurrão. Teve o ponto em que xinguei todo mundo também. Não adiantava! Eu tentava me preparar para a dor que cada contração anunciava. Impossível. Nem a anestesia reduziu essa sensação.

Eu estava ficando fraca. Não aguentava mais de tanta dor, de exaustão. Não, não dava mais! A Inês me confirmou que estava vendo a cabeça da nossa filha. Por que ela não deixava o meu corpo? Não era assim que tinha que acontecer? Que dor!! QUE DOR!!! Eu olhei no fundo dos olhos da Valéria e implorei que ela tirasse a Antonia de dentro de mim, não importava a forma.

A Valéria tem a calma e a segurança de quem nasceu para fazer os outros nascerem. Ela pegou o que os médicos chamam de kiwi, uma espécie de ventosa que gruda na cabeça do bebê para ajudar a puxar. Posicionou e… um estalo. Tente outra vez.

Outra vez. Mais dor. Foooooorça!

Ela veio! E eu nem acreditei. Eu só pensava: “saiu, saiu!”. Às 4h22 da manhã do dia 13 de fevereiro, 20 horas após o rompimento da bolsa.

Eu poderia romantizar aqui e escrever que, quando segurei minha filha nos braços, nos olhamos e tive a sensação de que já tínhamos nos visto antes. Que era ela, exatamente como eu tinha imaginado. Não. No momento que a Antonia saiu, eu continuava sentindo dor. Era a placenta. Ainda faltava tirar a placenta!

Depois disso, não consigo me lembrar de muita coisa. Pra mim, aquele parto de 20 horas durou duas. Não tenho clareza pra descrever a primeira vez que Antonia mamou em mim. Eu me certifiquei de que ela estava com saúde. Desde então, Antonia Donnici Vergara nunca mais saiu de perto da gente. Era nossa. Éramos mães.

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