Duas mães e uma filha

Antonia saiu de mim, mas não de perto de mim. Como fizemos parto normal, ela foi examinada no ambiente em que estávamos. Volta e meia eu pergunto pra Inês a ordem dos fatos, porque não me lembro com exatidão, nem mesmo do momento em que nossa filha foi colocada nos meus braços ou quando tentou exercer seu dom inato de sugar. Parece que o corpo se encarrega de se esquecer dos perrengues – afinal, tiraram ela, num parto rave, senti a maior dor de toda a minha existência e, com ela fora, socorro: faltava a placenta – não é que o treco é enorme?

Eu estava acabada, com dor, alívio, alegria, cansaço , elétrica de ansiedade, uma confusão de sensações. Tentei não sucumbir à inevitável tentação de romantizar nosso primeiro encontro, de esperar um daqueles imprints que despertam um reconhecimento de outras vidas. Que bom que eu tinha isso em mente. Menos uma culpa! Nosso bebê estava ali, teríamos tempo para nos apresentar. Vida nova.

Logo fomos para o quarto. Meus pais, que tinham chegado na maternidade às nove da manhã do dia anterior, ainda esperavam para ver a neta, mais de vinte horas depois. Inês e eu deixamos bem claro que não queríamos visita de outros parentes e amigos, por mais próximos que fossem. Aliás, não consigo entender muito bem essa tradição absurda que é aparecer na maternidade para dar um check no recém-chegado e na mãe acabada. “É melhor que seja no hospital do que em casa”. Não, minha gente! É melhor que não seja em lugar nenhum por enquanto. Deixa o casal – ou a mãe ou as duas mães – e o novo integrante da família se entenderem, se encontrarem. Hoje, quatro meses depois, asseguro que foi uma decisão muito acertada.

Os dois dias na maternidade com a nossa filha parecem um passado distante. Um filme em que eu era personagem e espectadora. Entra e sai de enfermeiras medindo, checando, perguntando, ensinando truques e processos, enquanto eu e Inês tentávamos desvendar os cuidados com a neném, nossas funções e o lugar que cada uma ocuparia. Eu, que não costumo florescer relatos, digo, com toda a sinceridade, que apesar de ter saído de mim, aquela coisinha era uma estranha.

Eu não fazia ideia de que bebês não interagem absolutamente nada quando nascem. Aliás, eu não fazia ideia de tanto. Antonia dormiu o dia todo e a gente mal conseguia pregar o olho. Como, com uma novidade dessa ao lado? Eu tinha receio até de vestir. Não troquei uma fralda na nossa estada no hospital. A Inês tinha mais iniciativa em aprender. Eu olhava, me informava. No entanto, assumo que a excitação e o cansaço formavam uma mistura mais poderosa, intensificada com o entra e sai de profissionais que sabiam muito mais que a gente.

Eu me deixava levar, tentando agir em relação ao que se apresentava em tempo real. Eu tinha ciência de que era um universo novo, que iria exigir demais da gente e não sentia medo por isso. Eu não estava sozinha. Tinha a Inês. Duas mães. E eu possuía, aqui dentro, uma segurança de que tiraria de letra. Pode parecer falta de humildade. Eu chamo de intuição.

Eu sentia dor no períneo. Uma dor enorme, principalmente quando fazia xixi. A Antonia nasceu grande, me rendeu uma laceração e uma bela hemorroida por fazer força. Uma dor de cabeça também, que eu achei que fosse cansaço ou algo hormonal, sei lá. Fui levando. À tarde, o incomodo foi virando enxaqueca. Não, isso não era normal. Falei com a enfermeira. “Deita. Melhora?”. Deitei, melhorou. “Melhor você falar com a sua médica”.

Existem partos convencionais e existe o meu parto. Existem pós parto convencionais e existe o meu pós parto. O veredito: cefaleia pós raqui. A tradução é que eu desenvolvi uma reação à anestesia. A recomendação era repouso, hidratação e remédios fortíssimos. Ia passar.

Antonia pouco chorou. Me recordo de me sentir mal quando colocava ela no meu peito ou levantava para fazer qualquer coisa. Como iria amamentar a minha filha com essa enxaqueca maluca que aparecia se eu mudasse de posição?

A resposta chegou na prática. À noite, a Antonia chorou, chorou muito. Aquela criatura pequena queria algo e, racionalmente, eu não sabia o que era. Ela ainda era tão leve que eu consegui tirar do bercinho, ao lado da cama do hospital, e colocar junto ao meu peito. A cabeça latejava.

O bebê que chamamos de Antonia, mas que ainda não tinha a menor interação, nem intimidade aparente, apesar de ter passado meses dentro de mim, abocanhou meu seio e dormiu. Devolvi para o bercinho. Mais choro. Eu tinha dor e exaustão. Encontrei força para pegar ela de volta, junto a mim. Ali, naquele momento, ela era mais importante do que eu. Ali, naquele momento, eu era mãe.

 

 

 

3 respostas para ‘Duas mães e uma filha

  1. Adorei como sempre seu relato! A maternidade é isso mesmo. Não é facil ,romantizam muito e só quem passa por ela sabe. Tive problemas com a anestesia tambem. Pinçaram meu nervo. Foi uma dor lacerante na coluna por 1 mês seguido. Tudo passa. Agora ja estao aqui 20 e 17 anos. Curta tudo! Passa muito rapido! Parabens a vocês duas!

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  2. É isso mesmo o sentimento de ser mãe , perdemos nosso ser , nossa mudança nos faz até mais forte . Outro paradoxo porque revigoramos sendo dois , três , varios seres juntos dependendo de quantos filhos , depois netos , mais uma força extra . Que bom filha que consegui te estimular a reproduzir . Estou muito orgulhosa de você ! Obrigada! Te amo❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️

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  3. Emocionada com esse relato, principalmente o final. É isso mesmo, a gente vira mãe e fica em segundo plano, faz tudo pelas crias. Que bom que vocês estão curtindo a maternidade. Torço para que curtam sempre 😘

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