Eu sou mamãe da Antonia

Toda vez que Inês e eu vamos ficar em um hotel, eu mando um e-mail especificando que somos um casal de mulheres – pra evitar o “Senhor e Senhora” no cartão de boas vindas, o chinelo 42, camas separadas, entre outros eventos que, nos dias atuais, já considero gafes. Os lugares precisam estar preparados para receber gente de todo tipo – e vamos combinar que casais de homens e de mulheres não são tão atípicos assim.

Quando fiquei grávida, o cuidado em evitar surpresas desagradáveis se intensificou. Eu era a Maíra, fisicamente grávida da Antonia, e a Inês era a mãe que também estava grávida, emocionalmente. Duas mães. Duas mães! Existe um despreparo de pessoas, estabelecimentos e instituições com o não convencional, mesmo havendo diferentes situações que fujam dele todos os dias. E mesmo sendo voltados para o atendimento. Carrego comigo a preocupação em abrir caminho para a nossa dupla maternidade e de tantas outras mulheres que se amam e desejam formar uma família.

Logo antes da Antonia nascer, eu e Inês fomos fazer um curso de “primeiros cuidados”. Estamos acostumadas a ser minoria; não é sempre que encontramos duas mães. Na sala de aula, éramos exceção mesmo. Os outros nove casais eram convencionais – outro dia ouvimos lá em casa, repetidas vezes, o termo “normais”. De uma pessoa da família! Me arrependi de não ter sido mais incisiva no meu espanto com esse tipo de tratamento. Hoje consigo detectar quando os comentários são provenientes de ignorância, curiosidade leviana, preconceito ou crueldade mesmo. É difícil, sempre machuca, mas vou me preparando para ser mais rápida e eficaz nas respostas e nas situações.

Na ocasião do curso, um sábado, notamos que havia homens animados, curiosos, dispostos, perguntando sobre o dia a dia do bebê. Porém, o que se desenhou foram duas horas de um bla bla bla que excluía a figura paterna. O pai só apareceu no discurso na hora do banho. Ah, sim, porque ali, o banho quem dava era o pai. Nossa filha iria ficar suja então…

A palestrante só se dirigia à mãe, uma mãe. E é isso aí, ninguém contestava. Tudo certo para um local que, como muitos, não tem trocador nos banheiros masculinos. Tristeza. Um centro de atividades, cursos, tratamentos, lazer, voltado para famílias, em que só existe a família formada por uma mãe e um pai presente, porém ausente, se é que vocês me entendem.

São inúmeras as situações em que sentimos que não pensam em outros modelos de famílias. Quando fui preencher a ficha na maternidade que queríamos ter a Antonia, me incomodou o fato de que, ao primeiro approach, assume que todo acompanhante é o pai.

Ora, sabemos que há outros casais de mulheres tendo filhos. E também que nem sempre são os pais que que acompanham os partos. Há mães, amigas, doulas. Mais ainda: existem mulheres que optaram pela produção independente ou que o homem não quis assumir. Gente, vamos combinar que o Brasil é o país campeão de famílias com uma única mãe. Sem outra mãe, sem pai, só a mãe. Por que essa conduta? Pois bem, lá fui eu, colocar o nome da minha mulher, mãe da minha filha, no lugar do nome do pai.

Tinha uma outra questão que nos incomodava. A gente via em fotos que o pai tinha um jaleco especial, escrito “eu sou o papai”. Se a pessoa ao lado não fosse o pai – muitas vezes não é -, teria que usar um igual o de todo mundo. Eu não queria a Inês passasse por isso. Não queria que outras mães passassem. Resolvi escrever para o hospital, via assessoria de imprensa, já que sou jornalista e estaria falando com “coleguinhas”, como chamamos quem é do ramo.

Me apresentei, falei da nossa gravidez, da nossa intenção de ter a nossa filha lá. Além de ter dito que lamentava que a maternidade não abrangesse na ficha opções para acompanhantes nos dias de hoje. Expressei minha intenção contei de encomendar, por minha conta, lógico, um jaleco para a minha mulher, escrito: “Eu sou mamãe”.

A reposta veio a jato, horas depois, via telefone. Nos convidaram para visitar a instituição e ressaltaram a importância de um feedback como o nosso. Ufa! Que quentinho no coração…! Aceitamos a proposta da visita guiada e estivemos lá, semanas antes. Foi também com antecedência que eu mandei fazer o jaleco. Personalizado: “Eu sou mamãe da Antonia”. Sim, ainda pus o nome da cria. Entreguei em janeiro, para que fosse devidamente destinado ao uso no nosso grande dia.

É… o grande dia! Quando chegou e rumamos para a maternidade, infelizmente, in loco, tive que preencher formulários com o nome da Inês no lugar do pai. Olha aí a foto! Por que não: “identidade dos responsáveis?”. Ah, antes de sair “opinando” que nossa insatisfação é “mimimi”, expressão bem atual, se coloque no nosso lugar. Grata.

Tirando a parte burocrática, fomos muito bem bem tratadas. O jaleco da Inês estava esperando por ela na sala de parto. Lindo! Rosa!

Na porta do quarto, nas identificações da Antonia, os nomes das duas mães estavam lá. Não tinha mãe, nem pai escrito. Apenas “filiação”. Aí sim!

Porém, o que mais me emocionou foi ver a certidão de nascimento da nossa filha. A gente se preparou tanto pra isso, nem acreditei quando a Inês voltou do cartório, dentro da própria maternidade, com ela. (Ah, antes que eu me esqueça, estava escrito na parede do recinto: “aqui o papai é bem vindo”. Me abana!!!)

Registrar um filho que nasce é um ato necessário, embora simples para a maioria. Para nós e vários outros casais, a certidão de nascimento com dupla maternidade – ou paternidade – é mais uma etapa vencida.

Para ter meu nome e o da Inês nesse documento, precisamos “provar” alguns feitos exigidos. Primeiro, que fizemos tratamento. É obrigatório apresentar um declaração da clínica, com firma reconhecida, atestando que o casal fez fertilização com doador anônimo – e, por favor, nesse caso, o termo “pai” deve ser abolido definitivamente. Em 2019, quem ainda usa em uma circunstância como a nossa já não é nem mais ignorante.

Segundo, temos que mostrar que somos legalmente um casal. Isso mesmo! Quanta gente aqui não registrou ou foi registrado sem que os pais fossem casados? Com duas pessoas do mesmo sexo, é impossível! Felizmente, hoje, no Brasil, foi viável escrever nossos nomes como mães da nossa filha.

Nossa luta nunca vai parar. Hoje eu consigo detectar quando os comentários, posturas, condutas são provenientes de ignorância, curiosidade leviana, preconceito ou crueldade mesmo. É difícil, sempre machuca, mas vou me preparando para ser mais rápida e eficaz nas respostas e nas ações.

2 respostas para ‘Eu sou mamãe da Antonia

  1. Inês,
    Nos casos que são feito inseminação caseira e como Não há comprovação da fertilização em clínica, mas o casal é casado, pode ser registrado no nome das duas mães?

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s