O temido puerpério

Quando fiquei grávida, me senti tão, mas tão estranha, que tive medo de ter depressão. Ou um ataque, sei lá. O peso de uma gravidez por meios não convencionais me atingiu em cheio – há quem não sinta essa carga; eu, por toda a minha história, senti. Tive um desconforto perene, como se estivesse fazendo algo de errado. Foi mais intenso no começo, acredito que pela inexperiência de ser diferente, e de viver uma situação pela primeira vez, como também pelos hormônios do tratamento. Não é novidade que mexeram bem comigo.

“Eu preciso de você agora, Maíra”, alertava a mim mesma, enquanto lidava com a angústia, grande vilã com a qual por vezes pelejei. Eu não aceitava ter angústia. Tremia ao sinal de desamparo. E se eu não tivesse onde segurar? Nunca na mergulhei tanto em mim e contei tanto comigo. (Vá lá, eu podia me dar ao luxo de fazer análise, de praticar exercícios físicos com profissionais, estava cercada de cuidados. Não tenho que me achar pior por causa disso. Aprendi que não se relativiza sofrimento. O meu era legítimo e eu o respeitei. Ainda bem!).

E eu tinha a Inês, que demorou um tempo para compreender, para entrar no meu desespero, naturalmente. Até que me alcançou, lá no fundo. Como foi bom! Procuro me colocar no lugar dela e entender o que pode estar passando. Nunca vou saber o que é viver uma gestação sem bebê dentro, enfrentar os olhares confusos ou descrentes dos outros. No entanto, eu precisava cuidar de mim. Precisava que ela olhasse pra mim. Do instante que isso aconteceu, pronto! Clicamos como nunca!

A gravidez me fez me enfrentar. Doeu, e muito. Eu me lembro que toda vez que a noite chegava, eu questionava se ia aguentar passar por ela, como se a escuridão colocasse à tona meus próprios monstros. Eu tinha pavor de calmaria, do silêncio. E cada vez que eu passava por mais uma noite e o dia renascia, tinha a sensação de que colocava mais um tijolinho no meu buraco interno.

Mais uma noite. Mais um dia. Mais um tijolinho. A gestação demorou aaaaaaaaaanos. Tempo suficiente para transformar a minha “obrinha” em fortaleza. Tudo bem, ia acabar. Só que eu não tinha garantias de que estava preparada para o que vinha a seguir.

Preparada, não, porque considero que ninguém está totalmente preparado para uma fase sem ter algum tipo de conflito. Eu sou controladora, por isso mesmo, sofro por antecipação, na fantasia de que, prevendo o caos, ele será minimizado. Para me fazer sentir no controle, talvez. Tolinha!

Saímos da maternidade e eu estava ilesa. Chegamos em casa e eu aguardava ele vir. O baby blues, aquela tristeza que pouca gente admite que bate nos primeiros dias pós parto. Estava achando estranho não ter tido uma vontade inexplicável de chorar. Ia desempenhando as funções, numa ação e reação às necessidades que eu ou Inês detectávamos na nossa filha.

O problema com a falta de xixi que mencionei no post anterior persistia. Nossa pediatra recomendou categoricamente que chamássemos uma consultora em amamentação para ajudar e eu não entendia por que. Não decifrava que aquela função que deveria ser natural para mim, que gestei, apresentava falhas.

A moça que nos atendeu e se prontificou a ir à nossa casa tinha o mesmo nome que eu. Uma visita paga, aproveito para esclarecer. Bem necessária. Ela estava acostumada a apagar incêndios e, com um glossário peculiar, ensinava a nós, “mãezinhas”, a fazer a “peguinha”, a aproveitar cada “gotinha”, a usar a “sondinha”. A “pega” do bebê, que, normalmente, é um dos principais problemas, estava perfeita. Antonia nasceu sabendo mamar. Saiu de mim abocanhando o seio lindamente.

Comecei a tirar leite de mim com uma bomba, que tínhamos comprado bem antes da nossa filha nascer, para complementar a mamada. Eu ficava um tempão tirando, para extrair, no máximo, 20ml. Isso tudo para dar o meu próprio leite e não oferecer fórmula para a nossa bebê. Com a sonda, fazíamos o que é chamado de translactação, para ter certeza de que alguma coisa estava entrando.

Escrevo isso agora. Na época, eu não tinha a menor ideia do que estava acontecendo. Seguia as instruções da pediatra e da consultora, num piloto automático, me questionando o que estaria errado. Até que todo aquele vocabulário de “mãezinha” e afins e as ordens e o cansaço e provavelmente os hormônios começaram a se embolar aqui dentro. Fui ficando incomodada, desordenada, só. Raramente soube o que fazer na vida como naquela ocasião. Raridade hoje frequenta.

De repente, ela chegou. Uma angústia que eu nunca, nunca, nunca senti. Uma tristeza física que tomou o meu corpo. O que era aquilo? Um desespero dentro da minha carcaça fraca. Que dor! “Você está no puerpério, isso é baby blues, quase todo mundo tem”, dizia a voz na minha cabeça. “Vai passar”.

Não tenho clareza por que a maioria das cenas de choro copioso descritas pelas minhas amigas e nos textos se passava no banho. Instintivamente – nem me recordei disso na hora -, tirei as roupas que vestiam o novo corpo de ex-grávida recém parida, entrei no box, liguei a água quente e me entreguei às lágrimas. A sensação que eu tinha é que eu parecia uma criança. Soluço de criança.

Chorei. Esperneei. Gritei. Nem que eu me esforce, nunca vou conseguir descrever ao certo o que se passava ali. “Se isso continuar, eu não vou aguentar. É depressão?”. Saí do banho e me joguei na cama. A Inês, que humanamente se imbuia nas próprias questões dela, se voltou pra mim, ao passo que eu protagonizava o pranto ininterrupto. E, como em um túnel, a escuridão deu lugar à luz novamente.

O baby blues pra mim foi isso, um túnel. Ora curto, ora mais longo. Dava medo de não sair. Combinei com ela que eu ia parar, falar e chorar sempre que precisasse. Segui à risca.

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