Vamos pra casa?

Os dias na maternidade costumam ser um porto seguro para as recém paridas. Felizmente, tivemos a possibilidade de escolher um quarto maior, não pensando em visitas, porque, como eu expliquei antes, desejávamos certa reclusão.

Quando um bebê nasce, é um rito apresentá-lo à sociedade como um trunfo. A gente pensa diferente. Antonia é nosso tesouro e a gente almejava ele bem guardado. Ela tem uma vida inteira para conhecer as pessoas que são importantes pra nós.

O bebê chega sem proteção alguma, num susto. Por que essa exposição? Fora que eu estava absolutamente combalida, precisávamos de algum sossegado, alguma privacidade. E a gente queria se preservar. Dos palpites, dos comentários como: “parece com x e y”. Tínhamos a noção de que precisávamos estar fortes, ambientadas, um pouco mais seguras.

Eu sabia que ali tínhamos toda atenção médica do mundo. Serviço de quarto para uma pessoa faminta, ajuda pra qualquer assunto e necessidade. Só que eu queria ir embora. Nós tínhamos preparado a casa para receber a nova moradora. Por pressão externa, contratamos uma enfermeira para esse primeiro dia. Novamente, porque tínhamos condições de arcar com um gasto como esse. Temos plena consciência de que é um luxo!

Inês e eu tínhamos idealizado o dia da saída da maternidade como uma cena triunfal. As duas arrumadas, com roupas especiais, segurando o bebê-conforto vermelho com a nossa filha dentro, também de vermelho. A realidade é paradoxal. Eu, que não inchei quase nada na gravidez, parecia que tinha sido inflada. Que coisa mais estranha! Sem contar com a barriga, cujo aspecto se assemelhava ao de gestante.

Fomos. Aquele bichinho no carro, dentro do trambolho que demoramos a aprender a manusear. Inês dirigindo. Eu atrás, morrendo de medo que acontecesse alguma coisa. Como assim pegar trânsito, buzina, risco de acidente, poluição, com aquele projeto de neném ali dentro? Toda hora via se estava respirando, se não tinha sido esmagada. Meu Deus! A gente não entendia nada de bebês.

Minha expectativa estava guardada para o tão sonhado instante em que a gente apresentaria a Antonia para suas irmãs caninas, Mel e Maria. Eu ansiava por isso mais do que qualquer outro encontro. Elas foram minhas grandes companheiras na gravidez, sabiam que havia algo diferente. Tínhamos ficado três dias fora.

Com todo cuidado, deixamos as duas cheirarem a nova integrante. As duas passaram semanas alvoroçadas, tentando entender o que ela aquele ser, enquanto lidavam com a brusca mudança na atenção que dispúnhamos. Foi doloroso perceber que elas estavam sofrendo. No entanto, é assim com a chegada de todo irmão mais novo. Uma fase.

Meus pais apareceram horas depois. Por um lado, fiquei feliz com eles ali. Minha mãe foi mais esperta e se conteve nas opinões. Já meu pai ainda não tinha realizado que eu e Inês tínhamos nos blindado das pressões externas. Em meia hora, Papai reclamou do cheiro da casa, da temperatura, das cachorras, da estrutura, do macacão que a gente ainda não tinha desenvoltura para colocar. Era toda uma gama de exigências e observações.

Até que eu me enchi. “Pai, se não for ajudar, melhor não atrapalhar”. Meu pai, que talvez tivesse a própria visão do que ele gostaria – e também por uma personalidade peculiar – esbravejou uns insultos e foi embora. Em outros tempos eu teria ficado chateada, encucada, culpada, fazendo exame de consciência para descobrir onde estava errando. Afe! Foi uma libertação.

Eu não consigo me lembrar com detalhes de como era no início. Acho que a Antonia não chorava muito – eu teria essa resposta em caso positivo. Também não sei precisar como era a amamentação. Eu sei que, lá pelas tantas, a pediatra perguntou se ela estava fazendo xixi. Gente! Eu não tinha noção de nada mesmo.

Não, não estava. Ela mamava, porém não estava fazendo xixi – o que eu, na minha inocência da época, não achei nada de mais. A médica insistiu que deveria estar havendo algum problema. Eu fiquei contrariada, julgando aquilo tudo um exagero. Ela tinha acabado de nascer, ia fazer xixi uma hora ou outra, como aconteceu na maternidade.

Não fazia. Até que a médica foi categórica: “ela tem que fazer xixi. Vocês têm que dar complemento pra garantir. Isso é muito sério!”.

Tínhamos ali uma profusão de sentimentos e opiniões. De um lado, a Inês, em pânico, afirmando que a gente não tinha que ter saído da maternidade. Do outro, a minha mãe, repetindo que não tínhamos que ouvir tudo o que os médicos diziam. E tinha eu, do alto da minha soberba e do meu desconhecimento, vendo problema por causa do tal complemento. Onde eu estava com a cabeça?

Eu não possuía a mais vaga ideia de que poderia não estar saindo leite de mim. Nossa! Eu não sabia de nada. E se a médica não tivesse insistido? E se não tivesse WhatsApp? Ou a gente não tivesse condições de ter um médico? Nessa história do xixi, tão óbvia, e que eu sequer enxergava?

Quando paro para pensar nisso hoje, tenho arrepios. Devemos muito a essa médica, que está com a gente ainda. Penso nas pessoas que não têm essa possibilidade de ajuda de prontidão. Penso em tantas mães.

E o puerpério estava apenas começando…

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