Espectadora de mim mesma

Eu já disse que as primeiras semanas com a Antonia fora da barriga mais pareciam uma vida em que eu me observava, como espectadora de mim mesma. Nós recebemos alta numa sexta. Eu queria muito voltar pra casa. Gosto de dormir fora dela cada vez menos. Tão estranho isso… Já fui cidadã do mundo, fiquei meses fora, adorava viajar e me embrenhar na morada dos outros. Não sei por ansiedade, por desconforto, mas hoje eu gosto de ficar no nosso larzinho.

No mais, eu morro de saudade das cachorras e queria ver como a estrutura que montamos se sairia. A gente lavou as coisinhas, arrumou de forma prática, compramos os produtos indicados pela pediatra. Isso ajudou muito quando chegou a hora da gente mesma cuidar da nossa filha. A gente pesquisou, se informou. De alguma forma, se empoderou. (Caramba, acabei de ver que o corretor não reconhece essa palavra: “empoderar”. É exatamente assim que eu nos sentia quando vinham os palpites. O canal aberto com a nossa pediatra e a obstetra também foi de extrema importância. “Ok, pai, mãe, sogra, amiga, vizinha, você acha que é assim. Eu e Inês não. Obrigada”. Ufa).

Passado o susto da falta de xixi, segui amamentando a Antonia por livre demanda e fomos controlando o volume da urina na fralda, Inês e eu. Como eu disse, até hoje, quando penso nisso, tenho calafrios. Meu Deus! Que bom que a pediatra monitorou e insistiu. Que bom que temos a possibilidade de ter uma médica nos acompanhando.

Ouvimos tanto o “conselho” para aproveitar para dormir quando o bebê dormisse, mas não houve um dia em que isso aconteceu. Aliás, desconfio que seus autores e autoras jamais colocaram em prática a sabedoria. Fácil falar…

Eu não sei se a Inês tem a mesma impressão. A minha é que a gente passava o dia esperando alguma coisa acontecer. A Antonia dormir, a Antonia querer mamar, a Antonia ter frio, calor, sei lá. Logo entendemos que qualquer choro era aplacado no peito e que essa era a única forma de fazer ela pegar no sono. Ah, o sono! Esse estranho desconhecido. Nós duas fazíamos tudo tão instintivamente, que a recém-nascida decidia tudo.

Antonia dormia muito durante o dia. Acordava berrando para mamar. Como mamava! À noite, Inês e eu demoramos pra compreender – e aceitar – que tínhamos que mudar o fuso. Deitar com ela.

O descanso durava pouco à noite. Já exausta, eu não pregava o olho. Ficava em estado de alerta, não conseguia relaxar, porque sabia que ela despertaria a qualquer minuto.

Nos primeiros meses, o recém-nascido é quase um bichinho e isso pode ser bem estranho. Eles interagem pouco e da forma deles: choram, fazem xixi, coco, dormem por longos períodos e poucos também. Não tem hábito, nem regra. Só cuidar, cuidar e cuidar.

Eu tinha vontade de chorar em alguns momentos e me sentia esquisita. Sabia que era normal, o que ajudou bastante. Me preparei pra isso. Tinha noção de que a materialização do que esperamos por nove meses nem sempre – quase nunca – traz euforia. Não pensava em me perceber subitamente completa e preenchida com a nossa bebê. Ao mesmo tempo em que ficava esperando o momento em que a dor e a angústia não iriam embora. Por que eu ficava assim? Talvez medo de ser pega de surpresa. Queria me preparar pro pior.

A dor vinha, sim. Aí eu pedia um altos com a Inês, me abria, dizia o que eu estava sentindo. Teve uma vez, uma tarde, que eu pensei: “eu não estou gostando disso. Não amo esse bebê”. O pensamento me assustou. Me tirou do prumo. Fiquei horas incomodada, sem conseguir expressar. Sabia que era um indício forte de que a nuvem negra poderia se instalar aqui.

Conversei comigo mesma. Que sensação esquisita! Lembro que recebemos umas amigas em casa e, embora ali, participando, eu me sentia mal por dentro. Sou expert em fazer isso. “Estou tendo pensamentos ruins. E se eles continuarem? E se eu não amar minha filha? E se eu não gostar de ser mãe?”. Não foi a última vez que tive pensamentos ruins. Mas me perdoei e segui. E eles foram me amedrontando menos e indo embora. Ou se tornando menos estranhos a ponto de não assustarem mais.

Eu tinha mais preocupações do que momentos de curtição. Antonia estava ali, toda vermelhinha, cabeluda, cheia de roupas, com um quarto projetado pra ela, e um sem fim de demandas. Minha dor de cabeça oriunda da reação da raqui demorou a passar. As dores no períneo também. Até que, numa quarta-feira, uma semana depois que ela nasceu, eu acordei com muita, muita dor na região abdominal. Não conseguia me mexer, juro – e olha que sou resistente pra dor. Comecei a ter a sensação de estar febril. Raramente me engano, estava mesmo.

Óbvio que eu, que sou exagerada, neurótica e com uma imaginação poderosa, pensei logo numa infecção, hemorragia interna, seguida de retorno para o hospital e cirurgia. Liguei para a médica. Com toda a paciência, ela explicou que muito provavelmente a dor provinha de gases e a febre era um sinal de que meu leite tinha descido. Sim! Exatamente isso! Comigo é assim, né? Como a nossa obstetra mesmo diz: “há partos e há o meu parto”. Pois é, a descida do leite também seguiu essa tendência.

Foi só esse advento acontecer que eu passei a ter uma fome tão intensa, que me assustou. De repente, eu poderia comer dois, três pratos cheios e continuar faminta. Tinham alertado sobre o aumento do apetite. Só que eu sempre tive apetite. Parecia um buraco. A comida não dava vazão. Queria ter filmado eu comendo nos primeiros dias. O sono também! A bateria arriava completamente em determinada hora do dia. Sensações novas. Tantas sensações novas!

Seguimos no puerpério. Trancafiadas em casa, tentando nos descobrir como mães, o papel de cada uma ali. Nos distanciando e nos aproximando. Sendo desafiadas. Seguimos. Um dia depois do outro.

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