Ainda sobre militância

Nasci branca, economicamente privilegiada, mulher. Durante muito tempo, não entendi o que isso significava. Eu não entendia que eu era oprimida pelo simples fato de ser mulher. Não entendia que as oportunidades que eu tinha vinham do lugar que automaticamente ocupei no momento em que eu cheguei no mundo. Não entendia que a minha cor já me dava uma enorme vantagem em relação a grande parte das pessoas, que sequer posso dizer que coexistiam no meu universo restrito. Simplesmente elas nunca tiveram a chance de chegar até ele. Na nossa sociedade, sem precisar fazer muito esforço, nascer de determinado jeito já diz muito sobre o nosso destino.
Eu demorei pra entender essa dinâmica infeliz. Eu estava tão inserida na minha redoma, que não tinha o acesso, o alcance da desigualdade que impera em todos os âmbitos, em todas as ramificações das nossas relações interpessoais. E eu poderia ter ficado assim pra sempre. Era confortável estar no topo da cadeia socioeconômica. Ou achar que eu estava.
Na universidade, que ingressei com folga graças à educação que recebi e abracei, tive contato com uma outra realidade – fui a única da família primária a cursar o ensino público. Vi gente que estava ali com muito esforço. Que mal tinha condições pra bancar os centavos da xerox do conteúdo proposto, enquanto eu comprava livros só pra ler um único capítulo. Chato, né? É, mas cada um tem a sua vivência. Vida que segue. Eu ainda pensava assim.
Logo comecei a passar em tudo o que era teste de seleção de emprego. Nossa! Que vencedora! Só faltava agora conhecer um cara legal, ter filhos, confirmar os estágios a que toda a moça que nasce na minha casta foi designada.
Até que um dia eu saí do script. Me senti atraída por uma mulher. O que é que tem? Tinha! Tinha muito! Tinha, porque eu estava trilhando um caminho diferente do que eu supostamente teria nascido para trilhar. Tinha porque o que esperavam de mim não passava pela rota da homossexualidade.
Calma! É só uma fase! Eu continuo sendo a mesma de antes! Eu juro! Vou continuar sendo inteligente, competente, feminina, não muda nada!
Mas já tinha mudado. E doeu. Doeu pra caramba! Doeu a ponto de tentar esconder por muito tempo pra poder respirar e me sentir “normal”. Porém, eu só estava postergando minhas questões, me sufocando.
Aos trinta anos, eu tive uma crise de ansiedade tão forte, que achei que estava enlouquecendo. Comecei a sentir uma angústia que eu não conseguia controlar. E não tive outra alternativa a não ser olhar pra dentro e tentar entender o que o meu corpo estava me dizendo. Mais dor. Eu me percebi diferente. E não só por causa da sexualidade.
Talvez essa minha história seja bem diferente da sua. Talvez pra você tenha sido mais fácil ou ainda seja bem mais difícil. Eu estou usando ela para dizer que eu só fui perceber as relações de opressão justamente quando eu passei, claramente, pra o lado do oprimido.
E, quando isso aconteceu, eu percebi também que havia muita gente travando lutas que eu achava que não eram minhas. Não é porque eu sou filha do privilégio que não devo lutar por menos desigualdade social. Não é porque sou branca que sou isenta da luta antirracista. Pelo contrário! “Me sinto uma mulher tão ‘empoderada’, vão vocês queimar seus sutiãs e fazer protestos e afastar os homens”. Tolinha eu! Eu conseguia identificar um hiato enorme entre homens e mulheres, no entanto, não conseguia detectar a discrepância em toda parte, o tempo todo. Mas as mulheres que estavam lá, lutando antes de mim, sendo criticadas e diminuídas enquanto eu ocupava minha posição de bem resolvida, não se importavam. A luta delas era por mim também, embora eu, de alguma forma, só contribuísse para enfraquecer a delas.
Eu também não fui a primeira LGBT a escancarar sua relação e fazer um esforço para afirmá-la. Aliás, já fui uma pessoa bem preconceituosa. Já fiz piada de viado e sapatão. Já disse que bissexual era uma pessoa indecisa. Já chamei o amigo de viadinho e a amiga de caminhoneira. Sem me tocar que, enquanto isso, milhares estavam sendo oprimidos, se não assassinados, por serem quem eram. Eu posso ser bem resolvida hoje em dia. Mas enquanto tiver gente perdendo emprego por ser gay, enquanto tiver lésbica ouvindo que decidiu ficar com mulher porque não foi bem comida, enquanto tiver gente sofrendo, gente morrendo, eu preciso militar. E entendo que nem sempre quem é minoria quer ou consegue militar. Contanto que não minimize a minha luta, tudo certo.
Recentemente, além de mulher, além de LGBT, eu passei a ocupar, junto com a pessoa que eu escolhi para esse caminho, uma nova caixa: a dupla maternidade. Ué, mas mãe só tem uma! Cadê o pai? Quem é a mãe? Eu sabia que a gente enfrentaria uma série de questões, até pelo desconhecimento mesmo, nosso e dos outros. Porém, não fazia ideia de que haveria um esforço, não só para desmerecer a minha configuração familiar, como também para deslegitimar uma de nós duas como mãe.
“Você quer parto normal?”, “Onde você vai ter?”, “Parabéns pela sua gravidez!”. “Não! Nosso parto! Nossa gravidez! Nossa filha!”, eu respondia, enquanto ouvia questionamentos, afirmações e tinha olhares direcionados apenas pra mim. O plural, o nosso, começou a fazer parte da luta ali. Nunca mais saiu.
Até hoje, nunca nunca nunca tive a minha maternidade colocada à prova – e olha que, nos últimos meses, tem semanas que eu sou praticamente uma visitante em casa. Já a da minha mulher, volta e meia é confrontada, mesmo nas sutilezas. Essas são as piores, sem dúvida.
Não demorou muito para eu entender que, não importa como as coisas funcionam dentro da minha casa, ou nos ambientes onde nos sentimos respeitadas e acolhidas. Não importa se a minha mulher tem uma segurança inabalável na maternidade dela, reconhecida por quem mais tem peso nisso tudo, que é a nossa filha. Não importa o nosso umbigo. É preciso militar.
É preciso militar enquanto famílias de duas mães forem alvo de preconceito. É preciso militar enquanto houver mães não legitimadas. Enquanto houver o pensamento de que uma tem que dar o óvulo e a outra a barriga “para as duas serem mães”. Ô! É preciso militar!
A discussão sobre a luta pela legitimação das mães não é pessoal. Ela é social. E deve existir porque, sim, impera uma diferenciação desses lugares para validar uma e diminuir uma delas.
Não é sobre se sentir mãe, porque isso é pessoal, intransferível. É sobre conquistas num meio que acha que mãe só tem uma: a que gestou, a que deu a genética, a que performa feminilidade e tantos outros estereótipos.
É preciso militar pela igualdade enquanto só uma das mães tiver o direito a licença-maternidade, enquanto duas mães não conseguirem registrar seus filhos sem precisar mostrar um documento comprovando sua união e outro de clínica. Ok, minha filha tem as duas mães no registro. E quem tem duas mães e não conseguiu?
Existe uma diferença entre representação e representatividade. Eu optei pelos dois. Pela militância.

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